quinta-feira, outubro 19, 2006

OS HUMILHADOS

OS HUMILHADOS

(Sobre uma pintura de Rogério Ribeiro)



Os humilhados
vêm do centro de uma dor insuportável.

Pedem que o pintor lhes dê um rosto
um perfil de estátua grega
ou apenas que transforme as rugas ancestrais
em bandeiras
ou lençóis
de uma noite de noivado.

Os humilhados
trazem nos dedos
memórias de todos os ofícios.

Sabem a que cheira o jornal acabado de imprimir.
Dobram ferro.
Apanham azeitonas.
Arrancam constelações
do seio quente da terra.

Os humilhados
vêm dos becos mais fundos dos bairros cinzentos.

Atravessam as ruas da pintura
ou melhor
da liberdade.

Pedem a bênção da cor.

Querem ser belos.
Deuses.
Querem ser um furacão.

Dizem: nós somos o furacão.
Tocamos o metal e fazemos uma flauta.
O nosso cântico ressoa na penumbra
mesmo quando a pátria nos esquece.

Dizem: nós somos os danados da terra.
Trazemos o corpo inclinado ao desenho breve
e comovido
das papoilas.


DE "Marinheiro de outras luas", a publicar

sexta-feira, outubro 06, 2006

EUROPA

O blog EUROPA voltou ao activo. É daqueles em que vale a pena parar e beber a sua água funda.

Endereço:


http://flautamagica.blogspot.com/

ERRÂNCIA

ERRÂNCIA


Tu que nasces hoje ou amanhã,
António ou Manuel
ou seja qual for o nome
de vento
que em lusa língua te for dado,
serás marcado
com o ferrete da distância.

Seja o teu olhar de barro ou de granito,
buscarás para sempre
a estrela ou a palavra
que te entregue o corpo ao mar.

Aí acenderás o lume e serás abandonado
à tua condição de viajante,
trabalhando eternamente
sobre os mapas justos e perfeitos
onde se traçam as rotas para chegar
à mais bela de todas e todas
as ilhas inexistentes.

terça-feira, setembro 19, 2006

AO PASSAR POR ESPINHO

AO PASSAR POR ESPINHO

As ruas nasciam
de dentro dos comboios
e seguiam
direitas ao mar.

Os olhos dos meninos
tornavam-se navios
e alongavam
todo o novelo do peito
até ao fim da linha azul
do longe.

As casas abriam as janelas
e sorriam
à limpeza do ar.

Mas isso era no tempo
em que os comboios cantavam
com sotaque lento
e pousavam
por vezes
nalgum ramo de pinheiro
enquanto o mundo descansava
de tão longa caminhada.

quarta-feira, setembro 06, 2006

HISTÓRIAS

HISTÓRIAS

Conta-me uma história
carregada de orientes
músicas suaves
e perfumes.

Uma história envolta em pérolas
princesas
e peixes deslumbrantes.

Senta o meu olhar na tenda do deserto
sob a grande lua.
Peço: mostra-me os teus mapas irreais.
Fala-me do mar
ilhas misteriosas
a pimenta e a canela.

Desenha com palavras o brilho dos topázios
e o deslumbre sonoro
das intensas noites tropicais.

Não te contenhas. Voa.
Tece palavras e milagres.
Inventa-te anil vermelha e violeta.
Rouba à terra as cores ferruginosas.
Rouba aos rios o seu leito luxuoso de calhaus rolantes.
Toca os meus lábios com a seda sequiosa dos teus lábios.

Conta-me uma história
de ladrões felizes.


(IN "tEMPO AZUL")

terça-feira, agosto 29, 2006

BENDITO ESTE TEMPO MOLE (uma canção)

Às vezes uma letra de canção não faz sentido sem a música. Outras vezes até faz. Acontece mesmo, com alguma frequência, que os compositores musicais vão buscar poemas para os tornar em grandes canções.

Compositores como o Alain Oulman, o Zeca, o Adriano Correia de Oliveira, o Carlos Mendes, o Fausto, o Manuel Freire, o Vitorino e tantos outros fizeram maravilhosas canções com poemas de Camões,O'Neill, Gedeão,David Mourão-Ferreira, Pessoa, Botto, Manuel Alegre, etc, ets, etc.

O Zé Catlos Ary dos Santos pedia primeiro a música e depois é que fazia a letra, o que é muito difícil e exige ter um ouvido e um sentido ritmíco muito fortes.

Alguns compositores fazem nascer as suas letras, os seus poemas, ao mesmo tempo que a música. E nalguns casos fazem não só boas letras cantáveis mas autênticos poemas, com a densidade e a contenção que a grande poesia exige. Falo, por exemplo, do Zeca, do Fausto, do José Mário Branco.

Eu fiz muitas dezenas de canções ao longo da vida. Talvez algumas centenas. Uma parte significativa para teatro.

Gosto desta que aqui deixo. É inédita e pertence a um projecto nascido em 94 e que por esta ou aquela razão ainda não viu a luz do dia. O autor das músicas é um magnífico0 músico e um grande amigo, o Luís Pedro Fonseca.



BENDITO ESTE TEMPO MOLE


(Música de Luís Pedro Fonseca)


Bendito este tempo mole
de Lisboa a Mansabá
manga figo guaraná
rota suave do sol
céu estrelado o meu lençol
entre cachaça e sangria

Bendita seja a baía
e a laranja sumarenta
coladera e marrabenta
sumo de mar maresia
preguiçosa epidemia
no coração da floresta

Bendita a hora da sesta
e o pecado tropical
da tua boca imoral
na minha boca imodesta
quando a noite desembesta
numa festa dos sentidos

Bendito o corpo oferecido
ao beijo da brisa quente
e as tuas mãos insolentes
tacteando o meu tecido
ao som do fado corrido
numa guitarra indolente

Bendito este tempo quente
em que a vontade se escoa
e o olhar se aperfeiçoa
na ciência da ternura
que trago presa à cintura
do fim do mundo a Lisboa

quinta-feira, agosto 24, 2006

VELHOS COMBATENTES

XICO FANHAIS TINO FLORES AFONSO DIAS JOSÉ FANHA MANEL FREIRE

Velhos combatentes
e ainda com música nos dentes e um cravo na alma







quarta-feira, agosto 23, 2006

GEOGRAFIA

GEOGRAFIA

Do meu lugar não há registos
nem mapas
nem retratos.

Para falar dele terei de mencionar
um raio de sol manso
a nascer na transversal
das tábuas do soalho.

O meu lugar é a pura geografia.
Sem o sítio.
Mais o sítio.
Continente doce onde se inscreve
o pão de cada dia
e a mecânica dos ossos a ranger.

No meu lugar
a primavera nasce
suave e rumorosa
suspensa sobre pétalas de luz.
Cada pequeno animal
sai da pedra que o protege
e corre pelo seu mundo que é também o meu mundo
e leva os meus olhos
e regressa com perguntas.

O meu lugar existe
porque existe uma andorinha a dançar
em seu redor
e tudo se torna verde e depois maduro
e há um sumo de laranja
que escorre dos lábios por volta do meio-dia.

No meu lugar há círculos abertos
e todas as poções intentam misturar-se
para que a voz do coração se torne
num ofício de ventos e de cravos.

O meu lugar
é tão belo.

É tão belo
e tão breve
o meu lugar.

domingo, agosto 20, 2006

O PRAZER DAS LEITURAS

Gosto de partilhar o prazer das leituras. Por isso...

“AS BATALHAS NO DESERTO”

JOSÉ EMILIO PACHECO

Ed. OFICINA DO LIVRO

Uma nova colecção, "OVELHA NEGRA", destina-se a divulgar escritores latino-americanos não conhecidos em Portugal. Começou por este magnífico escritor mexicano.
Memórias ternas e malandrotas de um a infância passada na Cidade do México nos anos 50. Lê-se de uma assentada.

E a propósito... Saiu mais um romance de ANDREA CAMILLERI.

"LUA DE PAPEL"

É uma delícia como sempre.Os fãs do Inspector Montalbano multiplicam-se. Camilleri dá-nos uma personagem riquíssima e um retrato inesperado da sua Secília. Culinária, crime, sexo, política e mais doses enormes de humanidade e ironia.

Sairam os DVD's de dois filmes de ETTORE SCOLA que fazem parte do melhor das minha memórias cinéfilas:

"FEIOS PORCOS E MAUS"

C/Nino Manfredi

"UM DIA INESQUECÍVEL"

c/ Sofia Loren e Marcelo Mastroiani


É bom ver grande cinema com grandes actores e grandes diálogos, a fugirt ao padrão dos filmes americanos que, com raríssimas excepções, mesmo nos melhores casos, são cada vez mais iguais uns aos outros. É como o hamburguer. Uma vez é bom. Duas, assim, assim. À terceira, por favor dêem-me migas ou chafana, ou um simples peixe fresco e bem grelhado.

O AZEITE

O AZEITE


(Ao Rão Kyao)



Roubaste ao sol a luz que te escorrega
pelo dorso
quando cais em fio
aproximando-te dolente de uma música de sal.

Caminhas paralelamente
às mais vastas extensões azuis.

Vestes a sardinha
com teus líquidos fatos
de fazenda grossa e lenta.
Beijas o tomate.
Casas o teu corpo dócil mas altivo
com a renda de brancura de uma fatia de pão.

Em ti o Livro existe
ó verde irmão.
E a bandeira existe.
E os deuses mais antigos.
E o barro da palavra dignidade.

És o amigo mais puro
dos puros azeitoneiros.
Sangue do seu sangue.
Mágoa dos seus olhos numa fronteira
queimada.

Entras na boca dos pobres
com a tua doçura vegetal
e a tua transparência
tão densa
como um sexo de mulher.

És o meu consolo
ó líquido cristal.
Em ti
há um mar tranquilo
a espreguiçar-se todas as manhãs,
e todas as mães cantam
e os deuses vêm consagrar
a casa daqueles que te oferecem
a luz de um olhar sem mancha
ao nascer de cada dia.

terça-feira, junho 13, 2006

LIVRO DAS PERGUNTAS - NERUDA

LIVRO DAS PERGUNTAS (1974)


I

Porque é que os imensos aviões
não passeiam com os seus filhos?

Qual é o pássaro amarelo
que enche o ninho de limões?

Porque é que não ensinam a tirar
mel do sol aos helicópteros?

Onde é que a lua cheia deixou
o seu saco nocturno de farinha?

II

Se já morri e não me dei conta
a quem perguntarei a hora?

De onde tira tantas folhas
a Primavera de França?

Onde pode viver um cego
perseguido por abelhas?

Se se acabar o amarelo
com que é que vamos fazer o pão?

III

Diz-me, a rosa está nua,
ou só tem esse vestido?

Porque é que as árvores escondem
o esplendor das suas raízes?

Quem ouve os remorsos
do automóvel criminoso?

Haverá algo mais triste no mundo
que um comboio imóvel na chuva?


IV

Quantas igrejas tem o céu?

Porque não atacará o tubarão
as impávidas sereias?

Conversará o fumo com as nuvens?

É verdade que as esperanças
se devem regar com orvalho?


V

Que guardas na tua bossa?
perguntou o camelo à tartaruga.

E a tartaruga perguntou:
E tu, que conversas tens com as laranjas?

Terá mais folhas uma pereira
que em Busca do Tempo Perdido?

Porque se suicidam as folhas
quando se sentem amarelas?


(Tradução José Fanha)

sexta-feira, junho 09, 2006

A MÁQUINA DE APANHAR POETAS

A MÁQUINA DE APANHAR POETAS

Quando acabei o meu trabalho ninguém queria acreditar que ali, à frente de todos, estava uma máquina de apanhar poetas.

Para a festa de inauguração eu tinha convidado as pessoas mais importantes do país: o presidente de todos os enlatados e congelados, o grande polidor de moedas de 5 cêntimos, um repetidor de frases absurdas, alguns vendedores de ideias cinzentas, um treinador de futebol de botão e até um médico de almas, daqueles capazes de tirar nuvens de dentro da cabeça das pessoas e pô-las a nadar debaixo de água.

Mostrei-lhes os cálculos, os mecanismos e a máquina propriamente dita com as suas dobradiças e roldanas, o lançador de pétalas de rosa e as bandeirinhas de todas as cores.

Eu estava muito ansioso a ver a reacção deles enquanto todos olhavam muito desconfiados para a minha máquina. Passado pouco tempo começaram a tossir todos ao mesmo tempo e a dizer que o tempo estava a ficar fresco e que tinham de ir fazer as compras para o almoço.

Ninguém abriu a boca de espanto, ninguém ficou maravilhado pelo meu extraordinário invento, não me aplaudiram fervorosamente como eu esperava, nem sequer me deram uma palmada nas costas à laia de compensação.

“Se isso é uma máquina de apanhar poetas, apanha lá um poeta para nós vermos!”, disse-me o presidente que estava cheio de pressa de ir presidir para outro lado.

“Isso, isso!” repetiram todos, “Apanha lá um poeta para nós vermos!”

“Sabem… De momento é difícil… Não estamos na época dos poetas…”

“E qual é a época dos poetas? É a Primavera…? Ou será o Outono?”, disseram eles e riam-se de mim como se eu tivesse dito um grande disparate.

Percebi logo que todos os que ali estavam tinham um pensamento curto e não percebiam nada de máquinas. Ou, então, tinham-se afastado tanto da infância que não podiam entender que os poetas aparecem apenas na época do amor ou na do desespero.

Se eu queria que eles acreditassem na minha máquina de apanhar poetas tinha que fazer alguma coisa verdadeiramente estrondosa. Mas para isso precisava que houvesse um mínimo de poesia no ar.

Liguei o medidor de poesia mas não detectava nem uma réstea de poesia nuns mil kilómetros em redor.

A situação era muito difícil. Se queria apanhar um poeta, por pequenino que fosse, teria de ligar o programa super-especial de apanhar poetas a distâncias inter-siderais. Era muito perigoso. Nunca tinha utilizado aquele programa e receava que pudesse causar perturbações, explosões e confusões diversas.

Como não tinha alternativa, preparei-me e avisei que a minha máquina iria apanhar um poeta a grande distância, que podíamos passar por alguns momentos de grande abanadela e distribuí cintos de segurança e fatias de pão com manteiga a todos.

Quando chegou o momento carreguei no botão cor-de-laranja, fiz rodar o chupa-chupa de segurança e assobiei três vezes. A máquina começou a funcionar e, imediatamente, levantou-se uma grande ventania. Os meus convidados começaram a tremer muito, a abanar, quase a levantar voo.

Eu receava que fossem todos pelo ar ou que ficassem constipados. Mas não. De repente, no meio daquela terrível tempestade electro-poética, a pouco e pouco, de dentro do peito do presidente começou a sair o menino que ele já tinha esquecido que lá vivia.

Logo de seguida começaram a sair meninos do peito de cada convidado e todos esses meninos se puseram a brincar numa grande dança de roda.

O Presidente ficou um bocado desconfiado e, com um ar muito sério, perguntou quem eram aqueles meninos.

“Ora, ora…” responderam os meninos, “Somos crianças!”

O Presidente estava visivelmente incomodado. “Crianças… E que é que vocês, suas crianças, querem daqui?”

“Queremos cantar e dançar e queremos amor!”

O Presidente não estava a perceber mesmo nada. “Amor? O que é isso? O que é o amor?”

Um dos meninos respondeu com um sorriso sábio: “Ora…! O amor é um pássaro verde num campo azul no alto da madrugada!”

Ouvindo aquelas palavras, todos aqueles senhores muito importantes deixaram cair uma lágrima, lembrando-se do poeta que um dia tinham sido e, finalmente, perceberam que a minha máquina era um grande invento.

Bateram então muitas palmas, gritaram vivas, condecoraram-me com três malmequeres e fomos todos comer sorvetes.


José Fanha

(História escrita para acompanhar o catálogo da magnífica exposição de papeis esculpidos de Bernard Jeunet que tem como tema "Apanha-me também um poeta" no Auditório Municipal Augusto Cabrita no Barreir, aberta até ao fim de Julho)

terça-feira, junho 06, 2006

QUE CHEGASSES SEMPRE ASSIM

QUE CHEGASSES SEMPRE ASSIM


Que chegasses
sempre envolta
em leite e lua e luz difusa
desviando
todo o espinho,
preservando
o espanto de uma rosa aberta
ao sopro da seara
do amor.

Que chegasses
sempre ardendo
em lume azul
e sem sequer tocar o chão.

Que chegasses
decididamente vertical
caminhando pelas páginas
de um livro
bordado a pétalas vermelhas.

Que acendesses
sinos repicando
num domingo de casas
muito brancas
e meninos a acordar
em volta do pão quente.

Que chegasses
deslizando por cascatas verdes
e soltasses
um novelo de palavras e sussurros
e aplainasses
toda a ruga
toda a dor
ou desacerto.

Que chegasses
em torno do topázio
no tempo dos comboios
que caminham docemente
pelas linhas da nossa mão.

Que viesses
trazida por navios de muito longe
envolta num cortejo de pequenos peixes
e espalhasses pela rua
a longa cabeleira
dos diademas nocturnos.

Que chegasses com o vento
com a chuva
com o ouro do Verão
com a melodia dourada do mar.

Que chegasse
e chegasses
e nunca mais parasses
de chegar.



José Fanha

quinta-feira, junho 01, 2006

PEQUENOS PRAZERES

GALILEU GALILEI

Um texto histórico do Brecht. Claro, eficaz, pedagógico. No cinema a figura de Galileu ficou famosa na interpretação do Charles Laughton. No Teatro Aberto o Rui Mendes faz um Galileu magnífico e comovente. A encenação é do João Lourenço. O espectáculo é uma delícia.

MANUEL BANDEIRA

Antologia de um poeta brasileiro cheio de ternura e de humor doce que muito influenciou a poesiua portuguesa, angolana e caboverdeana nos anos 40 e 50. Uma delícia. Edição Relógio de Água.

A METÁFORA

Encontro o Mestre e digo-lhe que há poetas
que recusam a metáfora
e o Mestre sorri.
A metáfora é apenas a metáfora, diz ele,
e não vale a pena ser a favor nem contra a metáfora,
nem a favor nem contra seja o que for.

As coisas são e não são
à margem
dos poetas com assento
em casas de comércio,
diz o Mestre,
enquanto almoça.

A realidade vale exactamente o que vale o nosso olhar.
A realidade é um peixe,
o peixe nosso de cada poema.
E o poeta é uma criança… Um menino
que segue pelos caminhos com bolas etéreas
a subir no ar.

O poeta é um menino com olhos de menino
e uma dor muito funda no seu peito de menino.
O poeta atravessa os pátios da infância
e vai feliz, dizendo
que as breves metáforas que lança ao ar
são apenas planetas de sabão a explodir
sucessivamente
sobre a cabeça do mundo.


José Fanha

sábado, maio 27, 2006

O TROMBONE

O TROMBONE

(Foi uma magnífica peça de teatro com o Jorgfe Mourato e o Rui Quintas. O terxto era deste que se assina)

PÚBLICO À PORTA.

A 1- Minhas senhoras e meus senhores, façam o favor de entrar. Senhoras para a esquerda, senhores para a direita.

A 2- Também podia ser ao contrário. Não vejam nisto qualquer forma de discriminação. À direita de Deus Pai ficam os justos, diz a Bíblia.

A 1- A Revolução Francesa colocou os justos à esquerda.

A 2- Eva estendeu a maçã a Adão com a mão direita, conforme as fotografias o podem confirmar.

A 1- Portanto, não vale a pena fazer um bicho de sete cabeças por causa desta questão. Trata-se simplesmente de organização. É uma exigência do trombone. Ele gosta de ver tudo muito bem organizado.

A 2- Tudo em filas, em quadrados, em centúrias. Tudo geometricamente perfeito.

A 1- E nós, eu e o meu colega, na qualidade de ilustres serviçais de tão ilustre criatura, mais não fazemos que dar a Vossas Excelências os ilustres lugares que por direito, ilustremente vos cabem.

A 2- Portanto, é entrar, é entrar, é entrar. Uns à direita, outros à esquerda e vice-versa!

A 1- Ou, melhor dizendo, e como dizia o outro, tudo ao molho e fé em Deus!

O PÚBLICO ESTÁ SENTADO. OS DOIS ACTORES VÃO SENTAR-SE NA PRIMEIRA FILA DA PLATEIA.

A 1- Pronto. Cá estamos nós!

A 2- Era exactamente o que eu ia dizer: cá estamos nós.

A 1- Cá estamos nós e, estando nós, podemos começar pelo começo, o que é sempre uma boa maneira de começar.

A 2- Ou de acabar, conforme a hora a que estiverem a escutar-me.

A 1- Como de momento ainda não é tarde, vamos começar. Mas, antes disso, se tiveres mais alguma coisa a dizer aproveita agora antes que o começo nos impeça de começar outra coisa qualquer.

A 2- Bom... De momento não me ocorre nada que venha fazer a diferença e... Portanto, consequentemente, mais vale um pássaro na mão que dois a voar, ao menino e ao borracho põe-lhe Deus a mão por baixo, e...

A 1- E vamos à peça?

A 2- Qual peça?

A 1- A peça de teatro! Nós não estamos aqui por causa de uma peça de teatro?

A 2- É isso mesmo... A peça de teatro! Mas... Isto está com um ar muito desconchavado... Os actores ainda não apareceram...

A 1- Os actores somos nós!

A 2- Ah! Pois é, pois é! Já me tinha esquecido. Que cabeça a minha! Pois é! Os actores somos nós e, sendo assim... Vamos lá começar isto.

FALA DO SOLDADO

FALA DO SOLDADO

Roubam-nos o tempo,
o corpo
o nome.

Somos carne ou pouco mais que carne,
uma placa ao pescoço, uma inscrição, um número.

Vamos
a marchar
seguindo
através das navalhas da noite
sem olhar para o lado.

Roubam-nos os olhos,
fazem-nos dizer adeus
à casa, aos filhos, à mulher,
à própria carne.

Somos carne ou pouco mais que carne,
somos lixo.

Vamos
sem olhar o norte,
o sul,
a estrela da manhã.
Vamos
sem saber em que comarca
do medo nos enterram.
Vamos
vazios de desejos ou cantigas,
com a cabeça a estalar
e uma dor mineral a tocar tambor
em cada osso.

Somos carne ou pouco mais que carne,
pétalas negras, pássaros com farpas
de cristal na carne.

Mas são as botas que nos doem mais.
As botas
e também atrás da nuca.

E assim seguimos cumprindo um destino
de agulhas de metal,
ou melhor,
limpando o terreno,
quer dizer,
matando, mutilando, espalhando braços e pernas
por toda a extensão da paisagem,
fazendo
com que as botas nos fiquem cada vez mais
apertadas.

Somos carne ou pouco mais que carne.
E um dia havemos de explodir
em todas as direcções.

E nem os terapeutas da fala
nos podem impedir de fazer chover o nosso grito
sobre os pálidos telhados da cidade.




Esxcrito a propósito do início da guerra do Iraque. Mas também pode ser a propósito de qualquer gurra.

("Linha da frente", José Fanha e José Jorge Letria, Ed. Ausência)

sábado, maio 20, 2006

UMA JANELA DO SEGREDO ENTREABERTA

O CÓDIGO d'AVINTES

Tudo começa em torno da trama sinistra do Conclave dos Cavaleiros Teutónicos da Nova Ordem que quer dominar o mundo sem olhar a meios.

Por seu lado, Isaías Pires, professor de medicina expulso da Ordem por práticas pouco ortodoxas, pertencente a uma outra organização que se opõe aos intuitos pérfidos do Conclave, sofre um trauma e desata a falar aramaico, língua corrente no tempo de Cristo na Palestina e logo a seguir começam a morrer patos e pombos por todos os cantos.

De repente, todos os personagens, o anjo Gabriel e a sua Sara, Lilith, delirante diva sadô, a Arminda do bar do hospital, o dr. Fraga, a padeira de Avintes, o ex-Inspector Nuno Costa, o professor Aquilino, especialista em línguas mortas, e outros mais, bons e maus, desatam a procurar antiquíssimas relíquias sagradas que podem conferir um poder indescritível àqueles que as possuírem.

O cúmulo é que a chave do código para chegar a essas relíquias está escondido justamente numa bela terra à beira do Douro e, por isso mesmo, .ficará para sempre conhecido por O Código d’Avintes.

quarta-feira, maio 17, 2006

O BANDO DOS SETE VOLTA A ATACAR

Sete amigos juntaram-se para fazer uma brincadeira: escrever um romance sete mãos. Daí resultou "OS NOVOS MISTÉRIOS DE SINTRA".

Divertimo-nos muito a escrever, a pregar rasteiras uns aos outros e a ver que conseguíamos chegar ao fim com uma história despretenciosa mas divertida e bem articulada. Para nosso espanto, o êxito foi significativo.

Resolvemos reincidir. Desta vez cahama-se "O CÓDIGO d'AVINTES".

E se a chave para o maior segredo da humanidade estivesse em Avintes?

Este foi o ponto de partida. Divertimo-nos ainda mais. Vai sair dentro de poucos dias.

sábado, maio 13, 2006

MAIS ALGUNS PRAZERES

OS VERSOS DO CAPITÃO

Pablo Neruda. Ed. Campo das Letras


Dizia Luís Buñuel que de grandes escritores estava o mundo cheio; homens de bem é que havia poucos. Tenho tendência para concordar.

Primeiro a vida e depois a literatura. Digo. Ou a vida como literatura? Pergunto. Ou a literatura como vida verdadeira e a vida como imitação da literatura? Lobo Antunes diz que o livro é que tem que ser bom, não o autor. Talvez assim seja… Talvez. Mas, Deus!, quando na mesma pessoa se junta a dimensão do homem à do poeta é uma felicidade rara que nos toca.

Confesso que sou Neruda-dependente. Conheço-lhe a obra a par e passo. Leio e releio. Comparo as traduções com o original. Foi um dos primeiros deslumbres da minha história de leitor de poesia.

Não me esquece a emoção que senti quando li aí o seu primeiro poema: “O homem invisível” num caderninho amarelo da D. Quixote. 1968. Tinha eu 17 anos.

Neruda ficou até hoje. Foi um dos meus raros amigos que se mantiveram fiéis ao longo destes 38 anos.

Este livro ficou anónimo durante muitos anos porque os poemas aí reunidos se referem a um amor tórrido que Neruda não queria ou não podia dar a conhecer.

No entanto, quem conhecesse bem a escrita, o ritmo, a forma, o universo vocabular, a forma de construir as metáforas tão própria de Neruda, facilmente reconheceria a autoria.

Aqui se junta o poeta apaixonado ao poeta militante das grandes causas sem que a poesia se ressinta dessa militância mas, pelo contrário, através dela ganha mundivivência e humanidade como é tão frequente neste poeta extraordinário.

A tradução é excelente como é normal em Albano Martins, magnífico tradutor de poesia e poeta respeitabilíssimo mas, infelizmente, tão pouco referenciado.

“O SR. DIRECTOR”

O sr. Director chamou-me ao gabinete dele, fechou as persianas e eu vi logo que ele tinha posto uma cara daquelas de quem anda a comer ervas azedas há muito tempo.
Eu estava pequenino, cada vez mais pequenino e fiquei do tamanho de uma ervilha pequenina quando ele abriu a boca e me perguntou se eu sabia bem o pecado que tinha cometido. Eu não sabia. Ou pelo menos não me lembrava de nenhum pecado assim tão grande. Mas os olhos dele estavam muito grandes e a minha ignorância ficou pesada que nem chumbo.
Olhei à volta e à volta, a ver se algum santinho me ajudava. Mas nada. Não havia nenhum Santo à mão de semear. As paredes estavam brancas e vazias e eu fazia tudo para não mostrar que estava todo a tremer.
O sr. Director insistiu: “O menino sabe ou não sabe o pecado que cometeu?” E os olhos dele continuavam apontados contra mim como fogo em brasa. E eu, para não ficar ainda com mais culpas, disse logo que sim, que sabia muito bem qual era o pecado que tinha cometido.
O sr. Director parecia um rato pronto a deitar o dente ao queijo.... O queijo era eu e estava pronto a qualquer coisa para sair dali o mais depressa possível.
Passados para aí uns quinhentos anos ou mais, o sr. Director lá se acalmou e mandou-me ir confessar.
Foi o bom e o bonito para explicar o tal pecado na confissão. Eu não sabia dizer que pecado era aquele que tinha cometido. Fiquei muito tatebitates e pus-me a dizer que era um pecado muito grande, mesmo muito grande e muito horrível e que estava muito arrependido. E estava mesmo muito arrependido. E continuo a estar muito arrependido apesar de, passado tanto tempo, não saber ainda qual é o tal pecado tão grave que um dia cometi.


José Fanha, de "Diário inventado de um menino já crescido" (para a Petita com um beijo e muita ternura pelas palavras doces que me deixou neste blog)

domingo, maio 07, 2006

ASSIM DEVIA SER O MUNDO

ASSIM DEVIA SER O MUNDO

(Sobre um desenho de Fernando Lanhas)

“Amo a emoção que corrige a regra.Amo a
regra que corrige a emoção.”

George Braque

Assim devia ser o mundo:
claro e transparente
desenhado a régua e esquadro
em cores indiscutíveis
com a rectilínea precisão
do traçado
de um jardim francês.

Assim devia ser o homem:
claro e transparente
irmão do seu irmão
trabalhando a pedra da alegria
amassando noite fora o pão
ou roubando à terra a turfa do poema.

Assim devia ser o tempo:
claro e transparente.
uma tangente azul
à negritude
um edifício perfeito
construído apenas de água comovida
ou de cristal.

José Fanha, "Marinheiro de outras Luas"

OUTRAS ÁGUAS

OUTRAS ÁGUAS

(Sobre uma gravura de David Almeida)


Amarás o pássaro
cantando.

Amarás a lua
respirando
sobre o corpo das mulheres
e das cidades.

Amarás a curva delicada
no adeus da folha do salgueiro
a caminho do Outono.

Não hesites.

Ama em cada instante
a música que nasce e nunca voltará.

Este é o teu destino:
branco sobre branco.
Água deslizando
a caminho
de outras águas.

sábado, maio 06, 2006

O QUE É A POESIA QUE NÃO SALVA...?

“O que é a poesia que não salva
Nações ou pessoas?
Um conluio com mentiras oficiais,
Uma canção de bêbados cujas gargantas serão cortadas num momento,
Leitura para raparigas de liceu.”


Czeslaw Milosz, poeta polaco,Prémio Nobel da Literatura em 1961, “Dedicatória”, in "ALGUNS GOSTAM DE POESIA - Antologia", Ed. Cavalo de Ferro, tradução Jorge Gomes Miranda

terça-feira, maio 02, 2006

VLADIMIR HOLAN - Poeta Checo

A LOUCA


Até Deus tem um ofício, nós é que não sabemos qual,
diz a louca.

É preciso colocar um pedaço de Dezembro
sobre esse, onde não nevou, diz a louca.

Sim, estou a perder a vista, mas não me venham falar
de letras grandes e pequenas,
eu vejo bem, tenho uma voz grossa,
diz a louca.

Não pensem que me ponho a rir apenas
porque tenho uns belos dentes... Trata-se de uma visão vocal,
diz a louca.

Os cabelos sobre as costas da noite e a ira de uma concha
desvendarão a fineza das circunvoluções cerebrais da noz,
diz a louca.

Olha, todo este espaço preenchido pela ausência lúbrica
de um ladrão de cemitérios! Eu forço o destino docemente,
diz a louca.

Agora é que descobri que aquela minha amiga me traiu
apesar de calçar de vez em quando os meus chapéus,
diz a louca.

A camisa de forças não passa de um vestido de noiva para o registo
e outro para a igreja,
diz a louca.

Porque é que me puseram estes óculos escuros? Sem eles vejo muito bem
os impulsos cósmicos do cubismo!
Eu sou instruída!, diz a louca...

E teria dito com certeza muito mais
se me tivessem dado uma rocha para me sentar
em vez de um momento de atenção,
diz aquela louca.


Traduzido do francês por José Fanha, revisto por Jorge Listopad

domingo, abril 30, 2006

“O DIA DE RECEBER A PENSÃO”

O que eu mais gosto é de me lembrar do dia em que a minha avó ia receber a pensão.
Levava-me sempre a comprar um soldadinho e a comer um bolo na Mexicana.
Bem... A Mexicana não era mesmo mexicana. Era uma pastelaria portuguesa na Praça de Londres.
E a Praça não era de Londres nem era preciso ir a Londres para lá chegar. A Praça de Londres fica em Lisboa. Ali ao pé da Avenida de Paris. Que também não tinha nada a ver com Paris mas era onde a minha avó ia receber a pensão.
Não sei porque é que a pensão se chamava pensão. Para a receber não era preciso ir a nenhuma Pensão nem a nenhum Hotel. Íamos à Caixa. E a Caixa não era nenhuma caixa de bolachas nem de lápis de cor. Era um Banco. E o Banco também não era nenhum banco de cozinha nem de jardim. Era uma casa grande onde estava guardado o dinheiro.
E só a minha avó é que era mesmo a minha avó. A pessoa mais bonita e mais doce que eu conheci na minha vida.


José Fanha, "Diário Inventado de um Meninojá Crescido"

sábado, abril 29, 2006

OS POETAS

Ao Albano Martins



É preciso ler os poetas
na sua língua
com rodelas de tomate
e um fio de azeite
ao correr de cada verso.

É preciso chorar
as lágrimas que eles insistem
em soltar no silêncio
de indecisas madrugadas.

É preciso ouvir
o modo como caminham cantando
contra os muros revestidos
pelo arrepio das barbáries.

É preciso aprender com eles
a arte tranquila de habitar a brisa
em Maio
e dedilhar
o alaúde lunar
por baixo dos aloendros.

É preciso dizer que eles são poetas
perigosíssimos seres de olhos carregados
do mais doce sumo das cerejas.

São poetas e voam
como pombas na sílaba do mel.

São poetas e guardam
com horror a memória de terras
profanadas.

Nascem em Lisboa
Dublin
em Granada ou num gueto
de Varsóvia.

Se alguém te perguntar
ó meu irmão
diz que eles são poetas.
Bebem pétalas caminham
sobre a água das palavras.

São poetas
e venham de onde vierem
nasceram sempre ao teu lado
meu irmão
na raiz
do perfeito coração.

quinta-feira, abril 27, 2006

OBRIGADO A TODOS

Caríssimos amigos,

Estou espantado com o aparecimento de tantos comentários e tão quentes. Parece que os ideais valem a pena e há gente que os mantém de pé. E parece também que esta comunidade dos bloguistas tem muita gente que não não deixa cair os sonhos ao chão.

VIVA ABRIL! VIVA NÓS!

terça-feira, abril 25, 2006

ABRIL

Havia uma lua de prata e sangue
em cada mão.

Era Abril.

Havia um vento
que empurrava o nosso olhar
e um momento de água clara a escorrer
pelo rosto de mães cansadas.

Era Abril
que descia aos tropeções
as ladeiras da cidade.

Abril
tingindo de perfume
os hospitais
e colando um verso branco em cada farda.

Era Abril
o mês imprescindível que trazia
um sonho de bagos de romã
e o ar
a saber a framboesas.

Abril
um mês de flores concretas
colocadas na espoleta do desejo
flores pesadas de seiva e cânticos azuis
um mês de flores
um dia
um mar de flores
um mês.

Havia barcos a voltar
de parte nenhuma
em Abril
e homens que escavavam a terra
em busca da vertical.

O nosso lar passou a ser a rua
nesse mês sem sono.

Era Abril
e eu soltei o sumo
da palavras
e vi
dicionários a voar
nesse mês
e mulheres que se despiam abraçando
a pele das oliveiras.

Era Abril
que veio
que ardeu
e que partiu.

Abril
que deixou sementes prateadas
germinando longamente
no olhar dos meninos por haver.


José Fanha, in "Tempo Azul"

domingo, abril 23, 2006

EM TODOS OS SENTIDOS

Eu e o Zé Jorge Letria estamos a fazer um programa na

RÁDIO CONCELHO DE MAFRA, 105,6,

ÀS SEXTAS FEIRAS DAS 19H00 ÀS 20H00

AOS DOMINGOS DAS 22H00 às 23h00.

Falamos

EM TODOS OS SENTIDOS

SOBRE poesia e discos e música e tudo.

Apareçam.

OS RESISTENTES

Porque estamos em ABRIL este poema dedicado a
dois homens de ABRIL e dois queridíssimos amigos e
companehiros.

Ao Xico Fanhais e ao Manuel Freire






Acumulam derrotas e naufrágios.
Perderam amigos e haveres.
Mas sonham.

Caíram dez vezes
e onze se levantaram.
Porque sonham.

Nos seus olhos há torrões
de terra
cordões umbilicais
e a espuma vermelha de cavalos verdes.
Eles sonham.

Em cada gesto deixam a pairar
um aroma essencial de coiro curtido
ou alfazema.

Renascem dia-a-dia
agarrados à palavra mais fraterna
de todos os alfabetos.

São meninos transparentes
no imenso carrossel da luz.

Entram pela casa do padeiro
como fosse a sua.
Entram pelo mar do pescador
e compartilham peixe
e cicatrizes ancestrais.

Atravessam oceanos para levar o lume
ao alto das montanhas.

Falam na língua do cristal e da prata.
Bebem vinho.
Cantam.
Afagam a memória.
Passam devagar um dedo pela linha
de cada ruga e relembram
as margens duras do fogo
tornando mais amável
a imensa geografia deste mundo.


José Fanha

quinta-feira, abril 20, 2006

PEQUENOS PRAZERES

Apenas iniciado nestas coisas dos blogs, julgo que servem para partilhar prazeres.

Por isso aqui vão alguns prazeres recentes.

"INSTANTES", poesia de Wislawa Szymborska, Prémio Nobel da Literatura em 1996, tradução (excelente)de Elzbieta Milewska e Sérgio Neves, Ed. Relógio de Água.

Poesia discreta, ténue e intensa. Belíssima.

"AMORES FEITICEIROS", contos de Tahar Ben Jelloun, escritor e poeta marroquino, Ed. Cavalo de Ferro.

Escrita limpa, carregada de humanidade e do prazer de escrever e contar histórias.


"O MERCADOR DE VENEZA", texto de Shakespeare, realização de Michael Radford, com Al Pacino e Jeremy Irons. À venda em CD.

Que maravilha o texto de Shakespeare dito por actores desta dimensão! O filme talvez perca por ir demasdiado atrás do texto de teatro. Apesar de tudo são linguagens diferentes. Não é fácil pôr em filme um texto destes. Mas há momentos espantosos. É excepcional a cena de tribunal em que o Judeu, Al Pacino, vem requerer o pagamento dos juros de uma dívida que são, como ficou acertado, um kilo de carne arrancado ao devedor, jeremy Irons.

www.flautamagica.blogspot.com

Um blog mágico como o próprio nome indica.

E até breve. Para mais poesia e mais prazeres. E etc.

quarta-feira, abril 19, 2006

UM POETA SÍRIO

MUHAMAD AL-MAGHUT



O INVERNO



Como lobos em tempo de fome
crescemos por toda a parte
amámos a chuva
adorámos o Outono
e um dia até pensámos
enviar uma carta a agradecer ao céu
com uma folha de Outono em vez de selo
Acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares desapareceriam
as civilizações desapareceriam
e só o amor seria eterno.

Subitamente afastámo-nos
ela gostava de grandes sofás
eu gostava de grandes navios
ela gostava de ficar a olhar e a conversar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas
e apesar de tudo
os meus braços vastos como o universo
estão à sua espera...

Tradução a partir do inglês de José Fanha

terça-feira, abril 18, 2006

Á BEIRA DO CORAÇÃO

À BEIRA DO CORAÇÃO

(Ouvindo “Frates”, Arvo Part, Kronos Quartet)


Sentado à beira do coração
ouvindo o rio passar
percebes os calhaus rolando
os peixes carregando
promessas de alegria
raios de sol a brincar
na prata buliçosa
da corrente.

A neve derreteu-se.
Todo o branco é verde
a caminho do branco.
Nada está onde já esteve.
O mundo avança.
Rola.
Rodopia.
E tu com ele.

A brisa toca os teus cabelos.
Percorre-te o pescoço.
Anuncia-te
pequenos sobressaltos sépias
ou talvez um animal pequeno
arriscando
os umbrais da Primavera.

terça-feira, abril 11, 2006

JACQUES PRÉVERT

PÁGINA DE ESCRITA


Dois e dois quatro
quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis…
Repitam! Diz o professor
Dois e dois quatro
quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis.
Mas eis que o pássaro da poesia
passa no céu
a criança vê-o
a criança ouve-o
a criança chama-o:
Salva-me
brinca comigo
pássaro!
Então o pássaro desce
e brinca com a criança
Dois e dois quatro…
Repitam! Diz o professor
e a criança brinca
e o pássaro brinca com ela…
Quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis
e dezasseis e dezasseis quanto é que faz?
Dezasseis e dezasseis não faz nada
e sobretudo não faz trinta e dois
e de qualquer maneira
eles vão-se embora.
A criança escondeu o pássaro
na sua carteira
e todas as crianças
ouvem a música
e oito e oito por sua vez também se vão
e quatro e quatro e dois e dois
por sua vez desaparecem
e um e um não fazem nem um nem dois
um e um também se vão dali.
E o pássaro da poesia brinca
e a criança canta
e o professor grita:
deixem de fazer palhaçadas!
Mas todas as outras crianças
escutam a música
e as paredes da sala
desmoronam-se tranquilamente.
E os vidros voltam a ser areia
a tinta volta a ser água
as carteiras voltam a ser árvores
o giz volta ser falésia
e a caneta volta a ser pássaro.


Tradução José Fanha

domingo, abril 09, 2006

A PROPÓSITO DE ABRIL

CRAVOS

Para os meninos que queiram recordar o que não viveram


Tinha um cravo na lapela
tinha outro cravo na mão
pus um cravo na janela
e mais um no coração.

Dei cravos a tanta gente
tanta gente os deu a mim
nesse dia de repente
tudo em volta era um jardim.

Dei um cravo ao soldadinho
outro cravo ao capitão
liberdade pão e vinho
e que viva a revolução.

Cravo em verso cravo em prosa
cravo nosso meu e teu
em Maio que é mês da rosa
choveram cravos do céu.

Muito tempo já passou
no que passou desde então
mas o cravo esse ficou
dentro do meu coração.

Passa o tempo e não demora
no que passou desde então
mas o cravo inda cá mora
dentro do meu coração.


JFanha Abril 2006

terça-feira, abril 04, 2006

A CASA ACORDA





O mês de Março entra alegre
transparente e buliçoso
pela janela.

Tudo é ouro
na preguiça com que o sol
vem beijar
a intimidade da casa.

Os lagartos começam a acordar.

As abelhas dançam.

Digo blue. Blau. Azul.

E até a brisa é verde.


José Fanha, "Tempo Azul"