terça-feira, abril 11, 2006

JACQUES PRÉVERT

PÁGINA DE ESCRITA


Dois e dois quatro
quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis…
Repitam! Diz o professor
Dois e dois quatro
quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis.
Mas eis que o pássaro da poesia
passa no céu
a criança vê-o
a criança ouve-o
a criança chama-o:
Salva-me
brinca comigo
pássaro!
Então o pássaro desce
e brinca com a criança
Dois e dois quatro…
Repitam! Diz o professor
e a criança brinca
e o pássaro brinca com ela…
Quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis
e dezasseis e dezasseis quanto é que faz?
Dezasseis e dezasseis não faz nada
e sobretudo não faz trinta e dois
e de qualquer maneira
eles vão-se embora.
A criança escondeu o pássaro
na sua carteira
e todas as crianças
ouvem a música
e oito e oito por sua vez também se vão
e quatro e quatro e dois e dois
por sua vez desaparecem
e um e um não fazem nem um nem dois
um e um também se vão dali.
E o pássaro da poesia brinca
e a criança canta
e o professor grita:
deixem de fazer palhaçadas!
Mas todas as outras crianças
escutam a música
e as paredes da sala
desmoronam-se tranquilamente.
E os vidros voltam a ser areia
a tinta volta a ser água
as carteiras voltam a ser árvores
o giz volta ser falésia
e a caneta volta a ser pássaro.


Tradução José Fanha

7 Comments:

At 5:57 da tarde, Blogger wind said...

Belíssimo!

 
At 12:35 da manhã, Blogger paper life said...

:)

Boa tradução.

 
At 9:14 da manhã, Blogger zmsantos said...

E que tanta falta fazem os pássaros na cabeça de muita gente...

Abraço

 
At 10:26 da manhã, Blogger Paula Raposo said...

E... eu estou a ouvir e a ver, a tua voz, os teus gestos a declamares como só tu sabes, este magnífico poema!! Beijinhos.

 
At 10:40 da tarde, Blogger OrCa said...

Pois olha que lá isso, estou como diz a Paula Raposo, estava mesmo a ouvir-te dizer este poema!

Quando puderes, dá um salto à Catedral do Ognid, que ele também por lá te deixou um abraço:

http://catedral.weblog.com.pt/arquivo/166100#comments

Um abraço.

 
At 8:50 da manhã, Blogger eduardo said...

E para quando a declamação dos poemas? De viva voz, evidentemente.
O leitor arranja-se, faltará apenas o ficheiro de multimedia.
É pensar nisso.

 
At 11:43 da manhã, Blogger homoclinica said...

Que bom relembrar as músicas, as pessoas, os cantores, os poetas dos anos 60!!! José Fanha, benvindo à blogoesfera!

 

Enviar um comentário

<< Home