domingo, abril 30, 2006

“O DIA DE RECEBER A PENSÃO”

O que eu mais gosto é de me lembrar do dia em que a minha avó ia receber a pensão.
Levava-me sempre a comprar um soldadinho e a comer um bolo na Mexicana.
Bem... A Mexicana não era mesmo mexicana. Era uma pastelaria portuguesa na Praça de Londres.
E a Praça não era de Londres nem era preciso ir a Londres para lá chegar. A Praça de Londres fica em Lisboa. Ali ao pé da Avenida de Paris. Que também não tinha nada a ver com Paris mas era onde a minha avó ia receber a pensão.
Não sei porque é que a pensão se chamava pensão. Para a receber não era preciso ir a nenhuma Pensão nem a nenhum Hotel. Íamos à Caixa. E a Caixa não era nenhuma caixa de bolachas nem de lápis de cor. Era um Banco. E o Banco também não era nenhum banco de cozinha nem de jardim. Era uma casa grande onde estava guardado o dinheiro.
E só a minha avó é que era mesmo a minha avó. A pessoa mais bonita e mais doce que eu conheci na minha vida.


José Fanha, "Diário Inventado de um Meninojá Crescido"

11 Comments:

At 1:02 da manhã, Blogger Isabel José António said...

É uma comoção ler um texto tão belo e que me leva directamente de tetorno à infância! A sua Avó deve ter sido uma senhora fabulosa, talvez como a minha Mãe... Este é um texto que semeia felicidade e que recorda sem sombra de ser doentio ou depressivo... Traz-nos uma Lisboa quase desaparecida e a imagem da nossa própria infância, através da do Menino...

Também nos demonstra que "a lingua Portuguesa é muito traiçoeira", pois nada do que é "chamado" de determinada forma parece corresponder, mínimamente, àquilo que é!!! Curioso sentido de humor tão suave...

Um abraço,

Isabel

 
At 7:52 da manhã, Blogger OrCa said...

Belas avós... A nós elas, por um afago, mesmo enrugado, de meio-quilo, que a vida toda por toda a vida há-de senti-lo... :-)

Um abraço.

 
At 12:32 da tarde, Blogger Licínia Quitério said...

Esta Avó tão doce teria por certo gostado de conhecer a minha que me oferecia flores e conchinhas.
Beijos.
Licínia

 
At 11:05 da tarde, Blogger TMara said...

não me digas k a mexicana já era? tiveste um bom 1º de Maio?
espero. Bj

 
At 9:52 da manhã, Blogger zmsantos said...

Tão iguais que as avós são...
Tão ternas as suas recordações...
Tão sofridas, ainda, as ausências dos seus carinhos...

Um abraço,

 
At 9:17 da manhã, Blogger Vasco Pontes said...

Olá Fanha,
Para que saibas, és uma referência da minha juventude. Pela atitude, mas também pela qualidade que impões a tudo o que fazes.
Um prazer encontrar-te por aqui.
Abraço

 
At 9:13 da tarde, Blogger GK said...

Texto absolutamente delicioso. Os meus parabéns!

 
At 2:29 da tarde, Blogger Xein said...

LINDO!!! Que texto maravilhoso e carinhoso... Afável e meigo... Que bom!

 
At 11:25 da tarde, Blogger Denise Pessoa said...

adorei isso. vou postar no meu blog, tá. com crédito, coisital. beijo.

 
At 4:48 da tarde, Blogger simone lemos said...

Ao ler o seu texto fiquei extremamente emocionada, revi a infância de meus filhos nesse texto tão simples e tão belo .
Em fim recordei a minha saudosa mae

 
At 12:38 da manhã, Blogger Anabella Silva said...

Lembro-me como se fosse hoje o dia em que foi à minha escola recitar algumas das suas obras.
Este e a obra que se referia a " a minha mesa somos 7" marcou'me.
O certo, é que desde o dia em que o vi despertou-se em mim "um bichinho pa poesia" e comecei a escrever.
tenho uma grande admiração por si e pelos seus trabalhos :)

 

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