sábado, maio 13, 2006

MAIS ALGUNS PRAZERES

OS VERSOS DO CAPITÃO

Pablo Neruda. Ed. Campo das Letras


Dizia Luís Buñuel que de grandes escritores estava o mundo cheio; homens de bem é que havia poucos. Tenho tendência para concordar.

Primeiro a vida e depois a literatura. Digo. Ou a vida como literatura? Pergunto. Ou a literatura como vida verdadeira e a vida como imitação da literatura? Lobo Antunes diz que o livro é que tem que ser bom, não o autor. Talvez assim seja… Talvez. Mas, Deus!, quando na mesma pessoa se junta a dimensão do homem à do poeta é uma felicidade rara que nos toca.

Confesso que sou Neruda-dependente. Conheço-lhe a obra a par e passo. Leio e releio. Comparo as traduções com o original. Foi um dos primeiros deslumbres da minha história de leitor de poesia.

Não me esquece a emoção que senti quando li aí o seu primeiro poema: “O homem invisível” num caderninho amarelo da D. Quixote. 1968. Tinha eu 17 anos.

Neruda ficou até hoje. Foi um dos meus raros amigos que se mantiveram fiéis ao longo destes 38 anos.

Este livro ficou anónimo durante muitos anos porque os poemas aí reunidos se referem a um amor tórrido que Neruda não queria ou não podia dar a conhecer.

No entanto, quem conhecesse bem a escrita, o ritmo, a forma, o universo vocabular, a forma de construir as metáforas tão própria de Neruda, facilmente reconheceria a autoria.

Aqui se junta o poeta apaixonado ao poeta militante das grandes causas sem que a poesia se ressinta dessa militância mas, pelo contrário, através dela ganha mundivivência e humanidade como é tão frequente neste poeta extraordinário.

A tradução é excelente como é normal em Albano Martins, magnífico tradutor de poesia e poeta respeitabilíssimo mas, infelizmente, tão pouco referenciado.

5 Comments:

At 12:58 da tarde, Blogger OrCa said...

"... Cantemos juntos até que as nossas taças
se entornem deixando púrpura derramada
sobre a mesa.
Esse mel chega à tua boca
vindo da terra, dos seus cachos obscuros.

Muitos de vós me faltam, sombras do canto, ó companheiros
que amei oferecendo a cara..."

de Pablo Neruda, in O Vinho

Cantemos juntos!

Um abraço.

 
At 2:38 da tarde, Blogger Licínia Quitério said...

O teu amigo Neruda "é meu amigo também".
Brindemos à Amizade (com ou sem vinho)!
Bjs.
Licínia

 
At 3:23 da tarde, Blogger Menina_marota said...

"O vento é um cavalo:
ouve como ele corre
pelo mar, pelo céu.

Quer levar-me: escuta
como percorre o mundo
para levar-me para longe.

Esconde-me em teus braços
por esta noite apenas,
enquanto a chuva abre
contra o mar e contra a terra
a sua boca inumerável.

Escuta como o vento
me chama galopando
para levar-me para longe.

Com tua fronte na minha
e na minha a tua boca,
atados os nossos corpos
ao amor que nos abrasa,
deixa que o vento passe
sem que possa levar-me.

Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e procure
galopando na sombra,
enquanto eu, submerso
sob os teus grandes olhos,
por esta noite apenas
descansarei, meu amor."

("O Vento na Ilha" in Os Versos do Capitão)

Apesar de nas minhas prioridades, vencer a Poesia Portuguesa e seus autores, Pablo Neruda é um dos "meus amantes" da Poesia...


Deixo um abraço ;)

 
At 3:24 da tarde, Blogger Poesia Portuguesa said...

Subscrevo a "Marota"...

... outro abraço ;)

 
At 3:54 da tarde, Blogger ana said...

Quero fazer contigo o que a Primavera faz com as cerejeiras.
Neruda, também uma paixão minha!

Olá Zé Fanha, gostei de te visitar aqui.

 

Enviar um comentário

<< Home