sábado, maio 13, 2006

“O SR. DIRECTOR”

O sr. Director chamou-me ao gabinete dele, fechou as persianas e eu vi logo que ele tinha posto uma cara daquelas de quem anda a comer ervas azedas há muito tempo.
Eu estava pequenino, cada vez mais pequenino e fiquei do tamanho de uma ervilha pequenina quando ele abriu a boca e me perguntou se eu sabia bem o pecado que tinha cometido. Eu não sabia. Ou pelo menos não me lembrava de nenhum pecado assim tão grande. Mas os olhos dele estavam muito grandes e a minha ignorância ficou pesada que nem chumbo.
Olhei à volta e à volta, a ver se algum santinho me ajudava. Mas nada. Não havia nenhum Santo à mão de semear. As paredes estavam brancas e vazias e eu fazia tudo para não mostrar que estava todo a tremer.
O sr. Director insistiu: “O menino sabe ou não sabe o pecado que cometeu?” E os olhos dele continuavam apontados contra mim como fogo em brasa. E eu, para não ficar ainda com mais culpas, disse logo que sim, que sabia muito bem qual era o pecado que tinha cometido.
O sr. Director parecia um rato pronto a deitar o dente ao queijo.... O queijo era eu e estava pronto a qualquer coisa para sair dali o mais depressa possível.
Passados para aí uns quinhentos anos ou mais, o sr. Director lá se acalmou e mandou-me ir confessar.
Foi o bom e o bonito para explicar o tal pecado na confissão. Eu não sabia dizer que pecado era aquele que tinha cometido. Fiquei muito tatebitates e pus-me a dizer que era um pecado muito grande, mesmo muito grande e muito horrível e que estava muito arrependido. E estava mesmo muito arrependido. E continuo a estar muito arrependido apesar de, passado tanto tempo, não saber ainda qual é o tal pecado tão grave que um dia cometi.


José Fanha, de "Diário inventado de um menino já crescido" (para a Petita com um beijo e muita ternura pelas palavras doces que me deixou neste blog)

3 Comments:

At 3:44 da tarde, Blogger Menina_marota said...

Todos nós temos um pouco de menino dentro de nós.
Todos nós temos estórias para contar.
Poucos o saberão fazer, como o autor deste livro o fez.

Parabéns!


É dele também este excerto de um dos Poemas que mais gosto...


"...De ti
meu irmão
ainda ouço
o grito que deixaste
encerrado
em cada pétala do céu
cada pedra
cada flor.
O grito de revolta
que largaste à solta
e que ficou para sempre
em cada grão de areia
a ressoar
como um pálido rumor.
O grito que não cansa
de implorar
por amor
e mais amor
e mais amor."


Um abraço ;)

 
At 10:19 da tarde, Blogger zé fanha said...

Cara Menina Marota,

Agradeço-lhe muito os seus comentários sempre doces e calorosos.

Um beijo e muita ternura,

 
At 9:36 da tarde, Blogger Ágata said...

Bem para começar queria agradecer-lhe ter vindo á Escola Secundária de Silves... Foi um grande prazer "conhece-lo", ao vivo e a cores.
Queria também dar-lhe os parabéns pela sua enorme expressividade e pelos seus grandes poemas e claro histórias de vida.
Ganhou uma nova admiradora...
Obrigado ! Ágata Santos

 

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