terça-feira, maio 02, 2006

VLADIMIR HOLAN - Poeta Checo

A LOUCA


Até Deus tem um ofício, nós é que não sabemos qual,
diz a louca.

É preciso colocar um pedaço de Dezembro
sobre esse, onde não nevou, diz a louca.

Sim, estou a perder a vista, mas não me venham falar
de letras grandes e pequenas,
eu vejo bem, tenho uma voz grossa,
diz a louca.

Não pensem que me ponho a rir apenas
porque tenho uns belos dentes... Trata-se de uma visão vocal,
diz a louca.

Os cabelos sobre as costas da noite e a ira de uma concha
desvendarão a fineza das circunvoluções cerebrais da noz,
diz a louca.

Olha, todo este espaço preenchido pela ausência lúbrica
de um ladrão de cemitérios! Eu forço o destino docemente,
diz a louca.

Agora é que descobri que aquela minha amiga me traiu
apesar de calçar de vez em quando os meus chapéus,
diz a louca.

A camisa de forças não passa de um vestido de noiva para o registo
e outro para a igreja,
diz a louca.

Porque é que me puseram estes óculos escuros? Sem eles vejo muito bem
os impulsos cósmicos do cubismo!
Eu sou instruída!, diz a louca...

E teria dito com certeza muito mais
se me tivessem dado uma rocha para me sentar
em vez de um momento de atenção,
diz aquela louca.


Traduzido do francês por José Fanha, revisto por Jorge Listopad

4 Comments:

At 2:53 da tarde, Blogger jorgesteves said...

'A loucura é inseparável do género humano: umas vezes toma-lhe a cabeça e deixa em paz o coração; outras vezes há na cabeça a frieza da razão e ao coração desce a loucura que o enche de afectos', escreveu o nosso Julio Dinis.
Lembrei-me disso ao ler este belo poema!...

 
At 4:47 da tarde, Blogger zmsantos said...

A loucura é parte integrante dos génios, dos poetas e dos bravos.

Viva Ela,via a Sua dinâmica, viva Nós!

 
At 2:01 da tarde, Blogger parvo mesmo said...

Tenho de voltar com mais tempo.

Ainda não entendi bem e louco, sou.

 
At 12:40 da tarde, Blogger Poesia Portuguesa said...

Os loucos têm sempre razão. Digo eu, que sou louca... ;)

 

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