quinta-feira, junho 01, 2006

A METÁFORA

Encontro o Mestre e digo-lhe que há poetas
que recusam a metáfora
e o Mestre sorri.
A metáfora é apenas a metáfora, diz ele,
e não vale a pena ser a favor nem contra a metáfora,
nem a favor nem contra seja o que for.

As coisas são e não são
à margem
dos poetas com assento
em casas de comércio,
diz o Mestre,
enquanto almoça.

A realidade vale exactamente o que vale o nosso olhar.
A realidade é um peixe,
o peixe nosso de cada poema.
E o poeta é uma criança… Um menino
que segue pelos caminhos com bolas etéreas
a subir no ar.

O poeta é um menino com olhos de menino
e uma dor muito funda no seu peito de menino.
O poeta atravessa os pátios da infância
e vai feliz, dizendo
que as breves metáforas que lança ao ar
são apenas planetas de sabão a explodir
sucessivamente
sobre a cabeça do mundo.


José Fanha

4 Comments:

At 10:09 da manhã, Blogger Vasco Pontes said...

É verdade que o rebentar das bolas de sabão não tem grande impacto no andar do mundo. Mas duas ou três almas extasiam-se na beleza breve que têm.
Só por isso valem a pena os poemas e as bolas de sabão
Abraço, poeta

 
At 12:51 da tarde, Blogger Licínia Quitério said...

Por esta riquíssima "Metáfora", uma folhinha do meu Plátano com um beijo.
Licínia

 
At 5:21 da tarde, Blogger Isabel José António said...

Metáfora é uma espécie estacionamento!
Quer dizer que tudo lá está contido
Mas não pertence àquele regimento
Em que se manda olhar para o umbigo!

Metáfora quer dizer tudo e nada diz
Pode ser o Tudo mas também o Nada;
Boneco na ardósia; um traço de giz
Que como um aroma também se propaga

Metáfora é entrar noutro plano
Rico em cambiantes mais invisíveis
É cobrir a cabeça com outro pano
Deixar de foram os olhos sensíveis

E paira-se acima das contrariedades
Bebem-se todas as metáforas dum golo
Aspira-se por todas as verdades
Queremos ver e fazemo-nos de tolo.

Metaforicamente a vida passa
Envolvendo-nos nas oportunidades
Mas a embecilidade também grassa
Em forma de mil e uma fraudes

Um abraço
caro Amigo

José António

 
At 11:12 da tarde, Blogger zé fanha said...

Caro Vasco,
Agradeço-lhe as palavras e aproveito para lhe dar um abraço pelo seu Homem de papel.

José Fanha

 

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