terça-feira, agosto 29, 2006

BENDITO ESTE TEMPO MOLE (uma canção)

Às vezes uma letra de canção não faz sentido sem a música. Outras vezes até faz. Acontece mesmo, com alguma frequência, que os compositores musicais vão buscar poemas para os tornar em grandes canções.

Compositores como o Alain Oulman, o Zeca, o Adriano Correia de Oliveira, o Carlos Mendes, o Fausto, o Manuel Freire, o Vitorino e tantos outros fizeram maravilhosas canções com poemas de Camões,O'Neill, Gedeão,David Mourão-Ferreira, Pessoa, Botto, Manuel Alegre, etc, ets, etc.

O Zé Catlos Ary dos Santos pedia primeiro a música e depois é que fazia a letra, o que é muito difícil e exige ter um ouvido e um sentido ritmíco muito fortes.

Alguns compositores fazem nascer as suas letras, os seus poemas, ao mesmo tempo que a música. E nalguns casos fazem não só boas letras cantáveis mas autênticos poemas, com a densidade e a contenção que a grande poesia exige. Falo, por exemplo, do Zeca, do Fausto, do José Mário Branco.

Eu fiz muitas dezenas de canções ao longo da vida. Talvez algumas centenas. Uma parte significativa para teatro.

Gosto desta que aqui deixo. É inédita e pertence a um projecto nascido em 94 e que por esta ou aquela razão ainda não viu a luz do dia. O autor das músicas é um magnífico0 músico e um grande amigo, o Luís Pedro Fonseca.



BENDITO ESTE TEMPO MOLE


(Música de Luís Pedro Fonseca)


Bendito este tempo mole
de Lisboa a Mansabá
manga figo guaraná
rota suave do sol
céu estrelado o meu lençol
entre cachaça e sangria

Bendita seja a baía
e a laranja sumarenta
coladera e marrabenta
sumo de mar maresia
preguiçosa epidemia
no coração da floresta

Bendita a hora da sesta
e o pecado tropical
da tua boca imoral
na minha boca imodesta
quando a noite desembesta
numa festa dos sentidos

Bendito o corpo oferecido
ao beijo da brisa quente
e as tuas mãos insolentes
tacteando o meu tecido
ao som do fado corrido
numa guitarra indolente

Bendito este tempo quente
em que a vontade se escoa
e o olhar se aperfeiçoa
na ciência da ternura
que trago presa à cintura
do fim do mundo a Lisboa

4 Comments:

At 5:35 da tarde, Blogger £duardo said...

José Fanha, quem lhe escreve este comentário é um grupo de três amigos que já tiveram o prazer de o ouvir recitar poesia numa ida a nossa escola, Escola 2.3 de D. Pedro IV.
Esta sua visita foi bastante importante para nós pois no seguimento dela todos começamos a ler poesia até que criamos um blog no qual damos lugar a escritores conhecidos bem como a outros que nos podem enviar os seus poemas por mail que depois serão postos no nosso blog, https://poemasdomundo.wordpress.com.
Esta mensagem tem com principal função agradecer-lhe por nos ter mostrado o mundo da poesia e para lhe pedirmos um pequeno favor, durante a sua visita a nossa escola recitou um poema do qual nós os três gostámos bastante mas não nos lembramos nem do nome nem do autor, apenas nos lembramos que o poema era sobre um copo e um cão e que uma parte do poema era assim: "se é um copo é um copo, se é um cão é um cão chamemos as coisas pelo nome que são." Se nos pudesse enviar (para: poemasdomundo@gmail.com) o nome do poema ou o escritor ficaríamos muito agradecidos. Uma vez que já sabe o nosso endereço se nos quiser visitar já sabe. Mais uma vez obrigado e um abraço destes seus atentos leitores.

 
At 10:44 da manhã, Blogger Zé "Prisas" Amaral said...

Por vezes, fugindo da solidão que nos acode, fazemos pequenos recitais de poesia.
O engraçado da coisa é que este poema é do nosso agrado e tomámos a liberdade de o transcrever aqui.
Mais para evitar o trabalho do Zé Fanha. Uma pessoa que passei a admirar já faz uns anos.
Por qualquer inconveniente, peço desculpa pelo abuso.


"Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e o cão não passa de um cão.

Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão
Mas se forem de vidraça
e logo forem janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?
E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.


E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.


E se o prato for de merda
E se o literato for de esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escrevemos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão.
Assim se chamam as coisas
pelos nomes que elas são."



José Carlos Ary dos Santos (Poeta português, 1937-1984)


Bom dia.

 
At 12:40 da tarde, Blogger Vasco Pontes said...

Pois é. Ele há pontes que são pontas que se atam ao tocar-se e ficamos a perguntar-nos como é que não tínhamos percebido?
Abraço

 
At 12:23 da tarde, Blogger OrCa said...

Ora, chamando as coisas pelos nomes que elas são e com pena (de galinha, essa mesma, a da vizinha...)por não saber da canção, diria deste poema ser ele um belo exemplo de "grande afecto cantabile", cheio de pés e cabeça, coisa que p'ra mal de pecados, não é vulgar que aconteça.

Abraço.

 

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