domingo, agosto 20, 2006

O AZEITE

O AZEITE


(Ao Rão Kyao)



Roubaste ao sol a luz que te escorrega
pelo dorso
quando cais em fio
aproximando-te dolente de uma música de sal.

Caminhas paralelamente
às mais vastas extensões azuis.

Vestes a sardinha
com teus líquidos fatos
de fazenda grossa e lenta.
Beijas o tomate.
Casas o teu corpo dócil mas altivo
com a renda de brancura de uma fatia de pão.

Em ti o Livro existe
ó verde irmão.
E a bandeira existe.
E os deuses mais antigos.
E o barro da palavra dignidade.

És o amigo mais puro
dos puros azeitoneiros.
Sangue do seu sangue.
Mágoa dos seus olhos numa fronteira
queimada.

Entras na boca dos pobres
com a tua doçura vegetal
e a tua transparência
tão densa
como um sexo de mulher.

És o meu consolo
ó líquido cristal.
Em ti
há um mar tranquilo
a espreguiçar-se todas as manhãs,
e todas as mães cantam
e os deuses vêm consagrar
a casa daqueles que te oferecem
a luz de um olhar sem mancha
ao nascer de cada dia.

1 Comments:

At 11:16 da manhã, Blogger Paula Raposo said...

Um poema bem à tua maneira! Sempre belo!

 

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