terça-feira, setembro 19, 2006

AO PASSAR POR ESPINHO

AO PASSAR POR ESPINHO

As ruas nasciam
de dentro dos comboios
e seguiam
direitas ao mar.

Os olhos dos meninos
tornavam-se navios
e alongavam
todo o novelo do peito
até ao fim da linha azul
do longe.

As casas abriam as janelas
e sorriam
à limpeza do ar.

Mas isso era no tempo
em que os comboios cantavam
com sotaque lento
e pousavam
por vezes
nalgum ramo de pinheiro
enquanto o mundo descansava
de tão longa caminhada.

9 Comments:

At 7:14 da manhã, Blogger Paula Raposo said...

Bonito, Zé! Isso era o tempo de se ter tempo. Beijos.

 
At 12:33 da manhã, Blogger GR said...

Lindíssimo poema!
Era um tempo, um outro tempo!
Hoje, fazem um profundo buraco para enterrar o comboio e os comboios deixarão de cantar!
Com o dinheiro do enterramento da linha, poderiam fazer habitações e escolas.
Lentamente enterram o centenário comboio, com o mesmo prazer que enterram Abril!

GR

 
At 11:47 da manhã, Blogger Sandra Cardoso said...

Também eu sou desse tempo
Em que o comboio nascia
De dentro de uma montanha
Por volta do meio-dia

E toda a aldeia parava
Toda a aldeia lhe sorria
Toda a aldeia acenava
E para casa corria

E eu, lá na varanda
Da casa da minha avó
Ficava a vê-lo passar
E continuava só.

Sandra Cardoso

 
At 3:35 da tarde, Blogger zemanel said...

Com muita amizade para um poeta que respeito MUITO, envio o meu

MANIFESTO

Passaram 32 anos após a conquista dos sonhos. Foram os nossos pais. Portugal saiu para as ruas e as suas avenidas povoaram-se de futuro e construção. Abriram-se escolas, criou-se hospitais, os médicos vieram para o interior, as comissões de bairro juntaram-se aos arquitectos e, nasceram casas para todos. Parques Infantis para as crianças. Portugal, Portugal todo, ganhou direito a gozar férias, mesmo quando ofereceu um dia de trabalho para a nação. A banca, os impérios financeiros, os monopólios industriais passaram para as mãos do povo. Passaram 32 anos e construímos para a nossa República, a Constituição – retrato da nossa luta, portugueses libertos pelas nossas mãos.

Hoje parece que perdemos o futuro. Desistimos, resignámos e o passado é que nos faz andar. Começamos nas coisas mais simples da nossa vida. Impingem-nos a Sopa da Avó, os bolos da Avó, a vida da avó – que coitada viveu na vil pobreza salazarenga…da sardinha para quatro. Ah dantes é que era bom…
No tempo da boa educação, do respeitinho e do juizinho. Todos ordenadinhos. Quando o Eusébio jogava e lutávamos contra os terroristas dos pretos de África.( Vejam lá que eles derreteram tudo quanto lá deixámos….)

Levam-nos as escolas, os hospitais, as maternidades, os direitos laborais, a segurança social e porra, dizem que é para o bem das gerações futuras.

Mas que raio de merda é esta das gerações futuras? É dar cabo do país que os meus pais construíram naquela madrugada de Abril?

As gerações futuras…Eles preocupam-se lá com as gerações futuras! Eles, a geração futura, que gramem os morangos com açúcar, a consola, a camisa de Vénus, o telemóvel, as mensagens sms e sobretudo cantem, cantem muito a cançãozinha reaccionária da Floribella, em que os ricos são uns pobres (!), coitados - vale mais ser pobrezinho, ouviram? De pequenino se torce o pepino.
E de pequeninos há por aí uns artistas que percebem.

E depois temos que gramar com o Berardo a vender o American Express a dizer que a gente com trabalhinho também lá chegamos…Como se o Joe tivesse lá chegado com trabalho.

A fábrica fecha, desenrasca-te.

As mulheres vão parir a Espanha, acho muito bem que as tias finas já lá vão abortar. Desenrasca-te

Não há centro de saúde, vai ao privado.

Não há escola, paciência – ainda se ganha bem nas obras.

Estás contratado a prazo até não sei quando? Azar, flexibiliza-te.

Juizinho! Veste a gravatinha e nada de greves ouviste? A Política não é para ti.
Esses gajos até são todos iguais…(Ainda chegas a sub gerente do balcão do nosso banco…)

É tudo tão moderno. Vem a malta do Beato com o compromisso, falam em futuro e eu só vejo o Salazar à frente. Mas como isto é uma democracia existe a esquerda, pá, do gin tónico, pá, com putos que deitam fogo pela boca e tocam djambé, pá. É também uma esquerda nova, pá. É moderna pá. Quer referendos por tudo pá, até prá segurança social da nossa constituição pá. Eles são modernos pá e eu só vejo antigos meninos reguilas à frente pá. Topas? É uma beca de esquerda, pá....

O futuro que nos arranjam agora é um futuro com parcerias com a sociedade civil – que é como quem diz, aí vem de novo a caridade!!! E à porta do supermercado do Belmiro cravam-me para o Banco Alimentar, na rua dizem-me que é contra a droga, dou mais 50 cêntimos para a Insttuição não sei do quê…Pergunto e ninguém responde: Onde está o meu IRS, a minha segurança social…São tão lindas as parcerias e o voluntariado. Mas o Estado não se obriga a nada?

A culpa disto ainda é dos pretos! Se ao menos fizessem como a Sara Tavares que é uma preta de respeito, foi morar pró condomínio e dá música aos vizinhos com um bom feeling. Aliás estamos tão à frente que os pretos no nosso país vivem todos como a boa da Sara no anúncio. A Azinhaga dos Besouros nunca existiu.

Mas o mais grave é a desfaçatez com que se trata os pobres da nossa terra! Hoje na televisão os senhores da Inspecção económica apreenderam peixe a comerciantes que trabalham honestamente, por vir em caixas de madeira – impróprio para consumo! Mas o peixe apreendido lá foi parar ao Banco Alimentar Contra a Fome. Então eu pergunto: Não serve para os restaurantes e serve para os pobres? Coitadinhos, não é?! Antes prós pobrezinhos e fazer mal do que deitar fora.

Porra! Mas quando é que nesta terra se enterra o Salazar?
José M Pereira
Torres Novas 19 Setembro 2006
www.canhotices.blogspot.com

 
At 11:31 da manhã, Blogger Vasco Pontes said...

Olá zé fanha,
Gosto do poema pelo ritmo, que é muito do teu estilo e pelas imagens, que ainda o são mais.Gosto particularmente dos navio em que se tornavam os olhos dos meninos e que o mundo tenha descansado no pinheiro.
Um poema pelo poema, diria. A ti que tanto queres dizer, e fazer, com os poemas fica-te bem, de vez em quando, um poema assim, tão limpído.
Abraço

 
At 12:40 da tarde, Blogger OrCa said...

Ora, viva, meu caro.
Viajei em comboios desses, sobre duas linhas e continuo (continuamos) a viajar neles sobre dois pensamentos.
O gin assenta-me mal, pelo que prefiro beber um sonho, on the rocks ou nem por isso, mas bem tirado. E, logo mais, dar-lhe corpo no meu (nosso) dia.
O Zemanel tem ali uma colecção de amarguras que doem como punhos, mas penso que devemos continuar a viajar no sonho destes comboios... Nunca nos esquecendo, claro, de sair na estação devida, sem esquecer a nossa bagagem e com os pés bem firmes na terra.
Talvez se consiga assim continuar a ouvir os passaritos...

Um grande abraço.

 
At 10:19 da manhã, Blogger Paula Raposo said...

Gostaria imenso de poder contar com a tua presença a 14 de Outubro, no lançamento do meu livro de Poesia. Beijos.

 
At 5:38 da tarde, Blogger Poesia Portuguesa said...

Hoje o Poesia faz um ano.
Um ano inteiro dedicado à Poesia de autores de Blogues, em que tu és também participante.

Por isso o meu obrigada e o meu abraço ;)

 
At 12:17 da tarde, Blogger De Amor e de Terra said...

Tudo pode ser agora diferente, mas " os olhos dos meninos continuam navios"...



Abraço

Maria Mamede

 

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