domingo, abril 30, 2006

“O DIA DE RECEBER A PENSÃO”

O que eu mais gosto é de me lembrar do dia em que a minha avó ia receber a pensão.
Levava-me sempre a comprar um soldadinho e a comer um bolo na Mexicana.
Bem... A Mexicana não era mesmo mexicana. Era uma pastelaria portuguesa na Praça de Londres.
E a Praça não era de Londres nem era preciso ir a Londres para lá chegar. A Praça de Londres fica em Lisboa. Ali ao pé da Avenida de Paris. Que também não tinha nada a ver com Paris mas era onde a minha avó ia receber a pensão.
Não sei porque é que a pensão se chamava pensão. Para a receber não era preciso ir a nenhuma Pensão nem a nenhum Hotel. Íamos à Caixa. E a Caixa não era nenhuma caixa de bolachas nem de lápis de cor. Era um Banco. E o Banco também não era nenhum banco de cozinha nem de jardim. Era uma casa grande onde estava guardado o dinheiro.
E só a minha avó é que era mesmo a minha avó. A pessoa mais bonita e mais doce que eu conheci na minha vida.


José Fanha, "Diário Inventado de um Meninojá Crescido"

sábado, abril 29, 2006

OS POETAS

Ao Albano Martins



É preciso ler os poetas
na sua língua
com rodelas de tomate
e um fio de azeite
ao correr de cada verso.

É preciso chorar
as lágrimas que eles insistem
em soltar no silêncio
de indecisas madrugadas.

É preciso ouvir
o modo como caminham cantando
contra os muros revestidos
pelo arrepio das barbáries.

É preciso aprender com eles
a arte tranquila de habitar a brisa
em Maio
e dedilhar
o alaúde lunar
por baixo dos aloendros.

É preciso dizer que eles são poetas
perigosíssimos seres de olhos carregados
do mais doce sumo das cerejas.

São poetas e voam
como pombas na sílaba do mel.

São poetas e guardam
com horror a memória de terras
profanadas.

Nascem em Lisboa
Dublin
em Granada ou num gueto
de Varsóvia.

Se alguém te perguntar
ó meu irmão
diz que eles são poetas.
Bebem pétalas caminham
sobre a água das palavras.

São poetas
e venham de onde vierem
nasceram sempre ao teu lado
meu irmão
na raiz
do perfeito coração.

quinta-feira, abril 27, 2006

OBRIGADO A TODOS

Caríssimos amigos,

Estou espantado com o aparecimento de tantos comentários e tão quentes. Parece que os ideais valem a pena e há gente que os mantém de pé. E parece também que esta comunidade dos bloguistas tem muita gente que não não deixa cair os sonhos ao chão.

VIVA ABRIL! VIVA NÓS!

terça-feira, abril 25, 2006

ABRIL

Havia uma lua de prata e sangue
em cada mão.

Era Abril.

Havia um vento
que empurrava o nosso olhar
e um momento de água clara a escorrer
pelo rosto de mães cansadas.

Era Abril
que descia aos tropeções
as ladeiras da cidade.

Abril
tingindo de perfume
os hospitais
e colando um verso branco em cada farda.

Era Abril
o mês imprescindível que trazia
um sonho de bagos de romã
e o ar
a saber a framboesas.

Abril
um mês de flores concretas
colocadas na espoleta do desejo
flores pesadas de seiva e cânticos azuis
um mês de flores
um dia
um mar de flores
um mês.

Havia barcos a voltar
de parte nenhuma
em Abril
e homens que escavavam a terra
em busca da vertical.

O nosso lar passou a ser a rua
nesse mês sem sono.

Era Abril
e eu soltei o sumo
da palavras
e vi
dicionários a voar
nesse mês
e mulheres que se despiam abraçando
a pele das oliveiras.

Era Abril
que veio
que ardeu
e que partiu.

Abril
que deixou sementes prateadas
germinando longamente
no olhar dos meninos por haver.


José Fanha, in "Tempo Azul"

domingo, abril 23, 2006

EM TODOS OS SENTIDOS

Eu e o Zé Jorge Letria estamos a fazer um programa na

RÁDIO CONCELHO DE MAFRA, 105,6,

ÀS SEXTAS FEIRAS DAS 19H00 ÀS 20H00

AOS DOMINGOS DAS 22H00 às 23h00.

Falamos

EM TODOS OS SENTIDOS

SOBRE poesia e discos e música e tudo.

Apareçam.

OS RESISTENTES

Porque estamos em ABRIL este poema dedicado a
dois homens de ABRIL e dois queridíssimos amigos e
companehiros.

Ao Xico Fanhais e ao Manuel Freire






Acumulam derrotas e naufrágios.
Perderam amigos e haveres.
Mas sonham.

Caíram dez vezes
e onze se levantaram.
Porque sonham.

Nos seus olhos há torrões
de terra
cordões umbilicais
e a espuma vermelha de cavalos verdes.
Eles sonham.

Em cada gesto deixam a pairar
um aroma essencial de coiro curtido
ou alfazema.

Renascem dia-a-dia
agarrados à palavra mais fraterna
de todos os alfabetos.

São meninos transparentes
no imenso carrossel da luz.

Entram pela casa do padeiro
como fosse a sua.
Entram pelo mar do pescador
e compartilham peixe
e cicatrizes ancestrais.

Atravessam oceanos para levar o lume
ao alto das montanhas.

Falam na língua do cristal e da prata.
Bebem vinho.
Cantam.
Afagam a memória.
Passam devagar um dedo pela linha
de cada ruga e relembram
as margens duras do fogo
tornando mais amável
a imensa geografia deste mundo.


José Fanha

quinta-feira, abril 20, 2006

PEQUENOS PRAZERES

Apenas iniciado nestas coisas dos blogs, julgo que servem para partilhar prazeres.

Por isso aqui vão alguns prazeres recentes.

"INSTANTES", poesia de Wislawa Szymborska, Prémio Nobel da Literatura em 1996, tradução (excelente)de Elzbieta Milewska e Sérgio Neves, Ed. Relógio de Água.

Poesia discreta, ténue e intensa. Belíssima.

"AMORES FEITICEIROS", contos de Tahar Ben Jelloun, escritor e poeta marroquino, Ed. Cavalo de Ferro.

Escrita limpa, carregada de humanidade e do prazer de escrever e contar histórias.


"O MERCADOR DE VENEZA", texto de Shakespeare, realização de Michael Radford, com Al Pacino e Jeremy Irons. À venda em CD.

Que maravilha o texto de Shakespeare dito por actores desta dimensão! O filme talvez perca por ir demasdiado atrás do texto de teatro. Apesar de tudo são linguagens diferentes. Não é fácil pôr em filme um texto destes. Mas há momentos espantosos. É excepcional a cena de tribunal em que o Judeu, Al Pacino, vem requerer o pagamento dos juros de uma dívida que são, como ficou acertado, um kilo de carne arrancado ao devedor, jeremy Irons.

www.flautamagica.blogspot.com

Um blog mágico como o próprio nome indica.

E até breve. Para mais poesia e mais prazeres. E etc.

quarta-feira, abril 19, 2006

UM POETA SÍRIO

MUHAMAD AL-MAGHUT



O INVERNO



Como lobos em tempo de fome
crescemos por toda a parte
amámos a chuva
adorámos o Outono
e um dia até pensámos
enviar uma carta a agradecer ao céu
com uma folha de Outono em vez de selo
Acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares desapareceriam
as civilizações desapareceriam
e só o amor seria eterno.

Subitamente afastámo-nos
ela gostava de grandes sofás
eu gostava de grandes navios
ela gostava de ficar a olhar e a conversar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas
e apesar de tudo
os meus braços vastos como o universo
estão à sua espera...

Tradução a partir do inglês de José Fanha

terça-feira, abril 18, 2006

Á BEIRA DO CORAÇÃO

À BEIRA DO CORAÇÃO

(Ouvindo “Frates”, Arvo Part, Kronos Quartet)


Sentado à beira do coração
ouvindo o rio passar
percebes os calhaus rolando
os peixes carregando
promessas de alegria
raios de sol a brincar
na prata buliçosa
da corrente.

A neve derreteu-se.
Todo o branco é verde
a caminho do branco.
Nada está onde já esteve.
O mundo avança.
Rola.
Rodopia.
E tu com ele.

A brisa toca os teus cabelos.
Percorre-te o pescoço.
Anuncia-te
pequenos sobressaltos sépias
ou talvez um animal pequeno
arriscando
os umbrais da Primavera.

terça-feira, abril 11, 2006

JACQUES PRÉVERT

PÁGINA DE ESCRITA


Dois e dois quatro
quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis…
Repitam! Diz o professor
Dois e dois quatro
quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis.
Mas eis que o pássaro da poesia
passa no céu
a criança vê-o
a criança ouve-o
a criança chama-o:
Salva-me
brinca comigo
pássaro!
Então o pássaro desce
e brinca com a criança
Dois e dois quatro…
Repitam! Diz o professor
e a criança brinca
e o pássaro brinca com ela…
Quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis
e dezasseis e dezasseis quanto é que faz?
Dezasseis e dezasseis não faz nada
e sobretudo não faz trinta e dois
e de qualquer maneira
eles vão-se embora.
A criança escondeu o pássaro
na sua carteira
e todas as crianças
ouvem a música
e oito e oito por sua vez também se vão
e quatro e quatro e dois e dois
por sua vez desaparecem
e um e um não fazem nem um nem dois
um e um também se vão dali.
E o pássaro da poesia brinca
e a criança canta
e o professor grita:
deixem de fazer palhaçadas!
Mas todas as outras crianças
escutam a música
e as paredes da sala
desmoronam-se tranquilamente.
E os vidros voltam a ser areia
a tinta volta a ser água
as carteiras voltam a ser árvores
o giz volta ser falésia
e a caneta volta a ser pássaro.


Tradução José Fanha

domingo, abril 09, 2006

A PROPÓSITO DE ABRIL

CRAVOS

Para os meninos que queiram recordar o que não viveram


Tinha um cravo na lapela
tinha outro cravo na mão
pus um cravo na janela
e mais um no coração.

Dei cravos a tanta gente
tanta gente os deu a mim
nesse dia de repente
tudo em volta era um jardim.

Dei um cravo ao soldadinho
outro cravo ao capitão
liberdade pão e vinho
e que viva a revolução.

Cravo em verso cravo em prosa
cravo nosso meu e teu
em Maio que é mês da rosa
choveram cravos do céu.

Muito tempo já passou
no que passou desde então
mas o cravo esse ficou
dentro do meu coração.

Passa o tempo e não demora
no que passou desde então
mas o cravo inda cá mora
dentro do meu coração.


JFanha Abril 2006

terça-feira, abril 04, 2006

A CASA ACORDA





O mês de Março entra alegre
transparente e buliçoso
pela janela.

Tudo é ouro
na preguiça com que o sol
vem beijar
a intimidade da casa.

Os lagartos começam a acordar.

As abelhas dançam.

Digo blue. Blau. Azul.

E até a brisa é verde.


José Fanha, "Tempo Azul"