sábado, maio 27, 2006

O TROMBONE

O TROMBONE

(Foi uma magnífica peça de teatro com o Jorgfe Mourato e o Rui Quintas. O terxto era deste que se assina)

PÚBLICO À PORTA.

A 1- Minhas senhoras e meus senhores, façam o favor de entrar. Senhoras para a esquerda, senhores para a direita.

A 2- Também podia ser ao contrário. Não vejam nisto qualquer forma de discriminação. À direita de Deus Pai ficam os justos, diz a Bíblia.

A 1- A Revolução Francesa colocou os justos à esquerda.

A 2- Eva estendeu a maçã a Adão com a mão direita, conforme as fotografias o podem confirmar.

A 1- Portanto, não vale a pena fazer um bicho de sete cabeças por causa desta questão. Trata-se simplesmente de organização. É uma exigência do trombone. Ele gosta de ver tudo muito bem organizado.

A 2- Tudo em filas, em quadrados, em centúrias. Tudo geometricamente perfeito.

A 1- E nós, eu e o meu colega, na qualidade de ilustres serviçais de tão ilustre criatura, mais não fazemos que dar a Vossas Excelências os ilustres lugares que por direito, ilustremente vos cabem.

A 2- Portanto, é entrar, é entrar, é entrar. Uns à direita, outros à esquerda e vice-versa!

A 1- Ou, melhor dizendo, e como dizia o outro, tudo ao molho e fé em Deus!

O PÚBLICO ESTÁ SENTADO. OS DOIS ACTORES VÃO SENTAR-SE NA PRIMEIRA FILA DA PLATEIA.

A 1- Pronto. Cá estamos nós!

A 2- Era exactamente o que eu ia dizer: cá estamos nós.

A 1- Cá estamos nós e, estando nós, podemos começar pelo começo, o que é sempre uma boa maneira de começar.

A 2- Ou de acabar, conforme a hora a que estiverem a escutar-me.

A 1- Como de momento ainda não é tarde, vamos começar. Mas, antes disso, se tiveres mais alguma coisa a dizer aproveita agora antes que o começo nos impeça de começar outra coisa qualquer.

A 2- Bom... De momento não me ocorre nada que venha fazer a diferença e... Portanto, consequentemente, mais vale um pássaro na mão que dois a voar, ao menino e ao borracho põe-lhe Deus a mão por baixo, e...

A 1- E vamos à peça?

A 2- Qual peça?

A 1- A peça de teatro! Nós não estamos aqui por causa de uma peça de teatro?

A 2- É isso mesmo... A peça de teatro! Mas... Isto está com um ar muito desconchavado... Os actores ainda não apareceram...

A 1- Os actores somos nós!

A 2- Ah! Pois é, pois é! Já me tinha esquecido. Que cabeça a minha! Pois é! Os actores somos nós e, sendo assim... Vamos lá começar isto.

FALA DO SOLDADO

FALA DO SOLDADO

Roubam-nos o tempo,
o corpo
o nome.

Somos carne ou pouco mais que carne,
uma placa ao pescoço, uma inscrição, um número.

Vamos
a marchar
seguindo
através das navalhas da noite
sem olhar para o lado.

Roubam-nos os olhos,
fazem-nos dizer adeus
à casa, aos filhos, à mulher,
à própria carne.

Somos carne ou pouco mais que carne,
somos lixo.

Vamos
sem olhar o norte,
o sul,
a estrela da manhã.
Vamos
sem saber em que comarca
do medo nos enterram.
Vamos
vazios de desejos ou cantigas,
com a cabeça a estalar
e uma dor mineral a tocar tambor
em cada osso.

Somos carne ou pouco mais que carne,
pétalas negras, pássaros com farpas
de cristal na carne.

Mas são as botas que nos doem mais.
As botas
e também atrás da nuca.

E assim seguimos cumprindo um destino
de agulhas de metal,
ou melhor,
limpando o terreno,
quer dizer,
matando, mutilando, espalhando braços e pernas
por toda a extensão da paisagem,
fazendo
com que as botas nos fiquem cada vez mais
apertadas.

Somos carne ou pouco mais que carne.
E um dia havemos de explodir
em todas as direcções.

E nem os terapeutas da fala
nos podem impedir de fazer chover o nosso grito
sobre os pálidos telhados da cidade.




Esxcrito a propósito do início da guerra do Iraque. Mas também pode ser a propósito de qualquer gurra.

("Linha da frente", José Fanha e José Jorge Letria, Ed. Ausência)

sábado, maio 20, 2006

UMA JANELA DO SEGREDO ENTREABERTA

O CÓDIGO d'AVINTES

Tudo começa em torno da trama sinistra do Conclave dos Cavaleiros Teutónicos da Nova Ordem que quer dominar o mundo sem olhar a meios.

Por seu lado, Isaías Pires, professor de medicina expulso da Ordem por práticas pouco ortodoxas, pertencente a uma outra organização que se opõe aos intuitos pérfidos do Conclave, sofre um trauma e desata a falar aramaico, língua corrente no tempo de Cristo na Palestina e logo a seguir começam a morrer patos e pombos por todos os cantos.

De repente, todos os personagens, o anjo Gabriel e a sua Sara, Lilith, delirante diva sadô, a Arminda do bar do hospital, o dr. Fraga, a padeira de Avintes, o ex-Inspector Nuno Costa, o professor Aquilino, especialista em línguas mortas, e outros mais, bons e maus, desatam a procurar antiquíssimas relíquias sagradas que podem conferir um poder indescritível àqueles que as possuírem.

O cúmulo é que a chave do código para chegar a essas relíquias está escondido justamente numa bela terra à beira do Douro e, por isso mesmo, .ficará para sempre conhecido por O Código d’Avintes.

quarta-feira, maio 17, 2006

O BANDO DOS SETE VOLTA A ATACAR

Sete amigos juntaram-se para fazer uma brincadeira: escrever um romance sete mãos. Daí resultou "OS NOVOS MISTÉRIOS DE SINTRA".

Divertimo-nos muito a escrever, a pregar rasteiras uns aos outros e a ver que conseguíamos chegar ao fim com uma história despretenciosa mas divertida e bem articulada. Para nosso espanto, o êxito foi significativo.

Resolvemos reincidir. Desta vez cahama-se "O CÓDIGO d'AVINTES".

E se a chave para o maior segredo da humanidade estivesse em Avintes?

Este foi o ponto de partida. Divertimo-nos ainda mais. Vai sair dentro de poucos dias.

sábado, maio 13, 2006

MAIS ALGUNS PRAZERES

OS VERSOS DO CAPITÃO

Pablo Neruda. Ed. Campo das Letras


Dizia Luís Buñuel que de grandes escritores estava o mundo cheio; homens de bem é que havia poucos. Tenho tendência para concordar.

Primeiro a vida e depois a literatura. Digo. Ou a vida como literatura? Pergunto. Ou a literatura como vida verdadeira e a vida como imitação da literatura? Lobo Antunes diz que o livro é que tem que ser bom, não o autor. Talvez assim seja… Talvez. Mas, Deus!, quando na mesma pessoa se junta a dimensão do homem à do poeta é uma felicidade rara que nos toca.

Confesso que sou Neruda-dependente. Conheço-lhe a obra a par e passo. Leio e releio. Comparo as traduções com o original. Foi um dos primeiros deslumbres da minha história de leitor de poesia.

Não me esquece a emoção que senti quando li aí o seu primeiro poema: “O homem invisível” num caderninho amarelo da D. Quixote. 1968. Tinha eu 17 anos.

Neruda ficou até hoje. Foi um dos meus raros amigos que se mantiveram fiéis ao longo destes 38 anos.

Este livro ficou anónimo durante muitos anos porque os poemas aí reunidos se referem a um amor tórrido que Neruda não queria ou não podia dar a conhecer.

No entanto, quem conhecesse bem a escrita, o ritmo, a forma, o universo vocabular, a forma de construir as metáforas tão própria de Neruda, facilmente reconheceria a autoria.

Aqui se junta o poeta apaixonado ao poeta militante das grandes causas sem que a poesia se ressinta dessa militância mas, pelo contrário, através dela ganha mundivivência e humanidade como é tão frequente neste poeta extraordinário.

A tradução é excelente como é normal em Albano Martins, magnífico tradutor de poesia e poeta respeitabilíssimo mas, infelizmente, tão pouco referenciado.

“O SR. DIRECTOR”

O sr. Director chamou-me ao gabinete dele, fechou as persianas e eu vi logo que ele tinha posto uma cara daquelas de quem anda a comer ervas azedas há muito tempo.
Eu estava pequenino, cada vez mais pequenino e fiquei do tamanho de uma ervilha pequenina quando ele abriu a boca e me perguntou se eu sabia bem o pecado que tinha cometido. Eu não sabia. Ou pelo menos não me lembrava de nenhum pecado assim tão grande. Mas os olhos dele estavam muito grandes e a minha ignorância ficou pesada que nem chumbo.
Olhei à volta e à volta, a ver se algum santinho me ajudava. Mas nada. Não havia nenhum Santo à mão de semear. As paredes estavam brancas e vazias e eu fazia tudo para não mostrar que estava todo a tremer.
O sr. Director insistiu: “O menino sabe ou não sabe o pecado que cometeu?” E os olhos dele continuavam apontados contra mim como fogo em brasa. E eu, para não ficar ainda com mais culpas, disse logo que sim, que sabia muito bem qual era o pecado que tinha cometido.
O sr. Director parecia um rato pronto a deitar o dente ao queijo.... O queijo era eu e estava pronto a qualquer coisa para sair dali o mais depressa possível.
Passados para aí uns quinhentos anos ou mais, o sr. Director lá se acalmou e mandou-me ir confessar.
Foi o bom e o bonito para explicar o tal pecado na confissão. Eu não sabia dizer que pecado era aquele que tinha cometido. Fiquei muito tatebitates e pus-me a dizer que era um pecado muito grande, mesmo muito grande e muito horrível e que estava muito arrependido. E estava mesmo muito arrependido. E continuo a estar muito arrependido apesar de, passado tanto tempo, não saber ainda qual é o tal pecado tão grave que um dia cometi.


José Fanha, de "Diário inventado de um menino já crescido" (para a Petita com um beijo e muita ternura pelas palavras doces que me deixou neste blog)

domingo, maio 07, 2006

ASSIM DEVIA SER O MUNDO

ASSIM DEVIA SER O MUNDO

(Sobre um desenho de Fernando Lanhas)

“Amo a emoção que corrige a regra.Amo a
regra que corrige a emoção.”

George Braque

Assim devia ser o mundo:
claro e transparente
desenhado a régua e esquadro
em cores indiscutíveis
com a rectilínea precisão
do traçado
de um jardim francês.

Assim devia ser o homem:
claro e transparente
irmão do seu irmão
trabalhando a pedra da alegria
amassando noite fora o pão
ou roubando à terra a turfa do poema.

Assim devia ser o tempo:
claro e transparente.
uma tangente azul
à negritude
um edifício perfeito
construído apenas de água comovida
ou de cristal.

José Fanha, "Marinheiro de outras Luas"

OUTRAS ÁGUAS

OUTRAS ÁGUAS

(Sobre uma gravura de David Almeida)


Amarás o pássaro
cantando.

Amarás a lua
respirando
sobre o corpo das mulheres
e das cidades.

Amarás a curva delicada
no adeus da folha do salgueiro
a caminho do Outono.

Não hesites.

Ama em cada instante
a música que nasce e nunca voltará.

Este é o teu destino:
branco sobre branco.
Água deslizando
a caminho
de outras águas.

sábado, maio 06, 2006

O QUE É A POESIA QUE NÃO SALVA...?

“O que é a poesia que não salva
Nações ou pessoas?
Um conluio com mentiras oficiais,
Uma canção de bêbados cujas gargantas serão cortadas num momento,
Leitura para raparigas de liceu.”


Czeslaw Milosz, poeta polaco,Prémio Nobel da Literatura em 1961, “Dedicatória”, in "ALGUNS GOSTAM DE POESIA - Antologia", Ed. Cavalo de Ferro, tradução Jorge Gomes Miranda

terça-feira, maio 02, 2006

VLADIMIR HOLAN - Poeta Checo

A LOUCA


Até Deus tem um ofício, nós é que não sabemos qual,
diz a louca.

É preciso colocar um pedaço de Dezembro
sobre esse, onde não nevou, diz a louca.

Sim, estou a perder a vista, mas não me venham falar
de letras grandes e pequenas,
eu vejo bem, tenho uma voz grossa,
diz a louca.

Não pensem que me ponho a rir apenas
porque tenho uns belos dentes... Trata-se de uma visão vocal,
diz a louca.

Os cabelos sobre as costas da noite e a ira de uma concha
desvendarão a fineza das circunvoluções cerebrais da noz,
diz a louca.

Olha, todo este espaço preenchido pela ausência lúbrica
de um ladrão de cemitérios! Eu forço o destino docemente,
diz a louca.

Agora é que descobri que aquela minha amiga me traiu
apesar de calçar de vez em quando os meus chapéus,
diz a louca.

A camisa de forças não passa de um vestido de noiva para o registo
e outro para a igreja,
diz a louca.

Porque é que me puseram estes óculos escuros? Sem eles vejo muito bem
os impulsos cósmicos do cubismo!
Eu sou instruída!, diz a louca...

E teria dito com certeza muito mais
se me tivessem dado uma rocha para me sentar
em vez de um momento de atenção,
diz aquela louca.


Traduzido do francês por José Fanha, revisto por Jorge Listopad