terça-feira, junho 13, 2006

LIVRO DAS PERGUNTAS - NERUDA

LIVRO DAS PERGUNTAS (1974)


I

Porque é que os imensos aviões
não passeiam com os seus filhos?

Qual é o pássaro amarelo
que enche o ninho de limões?

Porque é que não ensinam a tirar
mel do sol aos helicópteros?

Onde é que a lua cheia deixou
o seu saco nocturno de farinha?

II

Se já morri e não me dei conta
a quem perguntarei a hora?

De onde tira tantas folhas
a Primavera de França?

Onde pode viver um cego
perseguido por abelhas?

Se se acabar o amarelo
com que é que vamos fazer o pão?

III

Diz-me, a rosa está nua,
ou só tem esse vestido?

Porque é que as árvores escondem
o esplendor das suas raízes?

Quem ouve os remorsos
do automóvel criminoso?

Haverá algo mais triste no mundo
que um comboio imóvel na chuva?


IV

Quantas igrejas tem o céu?

Porque não atacará o tubarão
as impávidas sereias?

Conversará o fumo com as nuvens?

É verdade que as esperanças
se devem regar com orvalho?


V

Que guardas na tua bossa?
perguntou o camelo à tartaruga.

E a tartaruga perguntou:
E tu, que conversas tens com as laranjas?

Terá mais folhas uma pereira
que em Busca do Tempo Perdido?

Porque se suicidam as folhas
quando se sentem amarelas?


(Tradução José Fanha)

sexta-feira, junho 09, 2006

A MÁQUINA DE APANHAR POETAS

A MÁQUINA DE APANHAR POETAS

Quando acabei o meu trabalho ninguém queria acreditar que ali, à frente de todos, estava uma máquina de apanhar poetas.

Para a festa de inauguração eu tinha convidado as pessoas mais importantes do país: o presidente de todos os enlatados e congelados, o grande polidor de moedas de 5 cêntimos, um repetidor de frases absurdas, alguns vendedores de ideias cinzentas, um treinador de futebol de botão e até um médico de almas, daqueles capazes de tirar nuvens de dentro da cabeça das pessoas e pô-las a nadar debaixo de água.

Mostrei-lhes os cálculos, os mecanismos e a máquina propriamente dita com as suas dobradiças e roldanas, o lançador de pétalas de rosa e as bandeirinhas de todas as cores.

Eu estava muito ansioso a ver a reacção deles enquanto todos olhavam muito desconfiados para a minha máquina. Passado pouco tempo começaram a tossir todos ao mesmo tempo e a dizer que o tempo estava a ficar fresco e que tinham de ir fazer as compras para o almoço.

Ninguém abriu a boca de espanto, ninguém ficou maravilhado pelo meu extraordinário invento, não me aplaudiram fervorosamente como eu esperava, nem sequer me deram uma palmada nas costas à laia de compensação.

“Se isso é uma máquina de apanhar poetas, apanha lá um poeta para nós vermos!”, disse-me o presidente que estava cheio de pressa de ir presidir para outro lado.

“Isso, isso!” repetiram todos, “Apanha lá um poeta para nós vermos!”

“Sabem… De momento é difícil… Não estamos na época dos poetas…”

“E qual é a época dos poetas? É a Primavera…? Ou será o Outono?”, disseram eles e riam-se de mim como se eu tivesse dito um grande disparate.

Percebi logo que todos os que ali estavam tinham um pensamento curto e não percebiam nada de máquinas. Ou, então, tinham-se afastado tanto da infância que não podiam entender que os poetas aparecem apenas na época do amor ou na do desespero.

Se eu queria que eles acreditassem na minha máquina de apanhar poetas tinha que fazer alguma coisa verdadeiramente estrondosa. Mas para isso precisava que houvesse um mínimo de poesia no ar.

Liguei o medidor de poesia mas não detectava nem uma réstea de poesia nuns mil kilómetros em redor.

A situação era muito difícil. Se queria apanhar um poeta, por pequenino que fosse, teria de ligar o programa super-especial de apanhar poetas a distâncias inter-siderais. Era muito perigoso. Nunca tinha utilizado aquele programa e receava que pudesse causar perturbações, explosões e confusões diversas.

Como não tinha alternativa, preparei-me e avisei que a minha máquina iria apanhar um poeta a grande distância, que podíamos passar por alguns momentos de grande abanadela e distribuí cintos de segurança e fatias de pão com manteiga a todos.

Quando chegou o momento carreguei no botão cor-de-laranja, fiz rodar o chupa-chupa de segurança e assobiei três vezes. A máquina começou a funcionar e, imediatamente, levantou-se uma grande ventania. Os meus convidados começaram a tremer muito, a abanar, quase a levantar voo.

Eu receava que fossem todos pelo ar ou que ficassem constipados. Mas não. De repente, no meio daquela terrível tempestade electro-poética, a pouco e pouco, de dentro do peito do presidente começou a sair o menino que ele já tinha esquecido que lá vivia.

Logo de seguida começaram a sair meninos do peito de cada convidado e todos esses meninos se puseram a brincar numa grande dança de roda.

O Presidente ficou um bocado desconfiado e, com um ar muito sério, perguntou quem eram aqueles meninos.

“Ora, ora…” responderam os meninos, “Somos crianças!”

O Presidente estava visivelmente incomodado. “Crianças… E que é que vocês, suas crianças, querem daqui?”

“Queremos cantar e dançar e queremos amor!”

O Presidente não estava a perceber mesmo nada. “Amor? O que é isso? O que é o amor?”

Um dos meninos respondeu com um sorriso sábio: “Ora…! O amor é um pássaro verde num campo azul no alto da madrugada!”

Ouvindo aquelas palavras, todos aqueles senhores muito importantes deixaram cair uma lágrima, lembrando-se do poeta que um dia tinham sido e, finalmente, perceberam que a minha máquina era um grande invento.

Bateram então muitas palmas, gritaram vivas, condecoraram-me com três malmequeres e fomos todos comer sorvetes.


José Fanha

(História escrita para acompanhar o catálogo da magnífica exposição de papeis esculpidos de Bernard Jeunet que tem como tema "Apanha-me também um poeta" no Auditório Municipal Augusto Cabrita no Barreir, aberta até ao fim de Julho)

terça-feira, junho 06, 2006

QUE CHEGASSES SEMPRE ASSIM

QUE CHEGASSES SEMPRE ASSIM


Que chegasses
sempre envolta
em leite e lua e luz difusa
desviando
todo o espinho,
preservando
o espanto de uma rosa aberta
ao sopro da seara
do amor.

Que chegasses
sempre ardendo
em lume azul
e sem sequer tocar o chão.

Que chegasses
decididamente vertical
caminhando pelas páginas
de um livro
bordado a pétalas vermelhas.

Que acendesses
sinos repicando
num domingo de casas
muito brancas
e meninos a acordar
em volta do pão quente.

Que chegasses
deslizando por cascatas verdes
e soltasses
um novelo de palavras e sussurros
e aplainasses
toda a ruga
toda a dor
ou desacerto.

Que chegasses
em torno do topázio
no tempo dos comboios
que caminham docemente
pelas linhas da nossa mão.

Que viesses
trazida por navios de muito longe
envolta num cortejo de pequenos peixes
e espalhasses pela rua
a longa cabeleira
dos diademas nocturnos.

Que chegasses com o vento
com a chuva
com o ouro do Verão
com a melodia dourada do mar.

Que chegasse
e chegasses
e nunca mais parasses
de chegar.



José Fanha

quinta-feira, junho 01, 2006

PEQUENOS PRAZERES

GALILEU GALILEI

Um texto histórico do Brecht. Claro, eficaz, pedagógico. No cinema a figura de Galileu ficou famosa na interpretação do Charles Laughton. No Teatro Aberto o Rui Mendes faz um Galileu magnífico e comovente. A encenação é do João Lourenço. O espectáculo é uma delícia.

MANUEL BANDEIRA

Antologia de um poeta brasileiro cheio de ternura e de humor doce que muito influenciou a poesiua portuguesa, angolana e caboverdeana nos anos 40 e 50. Uma delícia. Edição Relógio de Água.

A METÁFORA

Encontro o Mestre e digo-lhe que há poetas
que recusam a metáfora
e o Mestre sorri.
A metáfora é apenas a metáfora, diz ele,
e não vale a pena ser a favor nem contra a metáfora,
nem a favor nem contra seja o que for.

As coisas são e não são
à margem
dos poetas com assento
em casas de comércio,
diz o Mestre,
enquanto almoça.

A realidade vale exactamente o que vale o nosso olhar.
A realidade é um peixe,
o peixe nosso de cada poema.
E o poeta é uma criança… Um menino
que segue pelos caminhos com bolas etéreas
a subir no ar.

O poeta é um menino com olhos de menino
e uma dor muito funda no seu peito de menino.
O poeta atravessa os pátios da infância
e vai feliz, dizendo
que as breves metáforas que lança ao ar
são apenas planetas de sabão a explodir
sucessivamente
sobre a cabeça do mundo.


José Fanha