BENDITO ESTE TEMPO MOLE (uma canção)
Às vezes uma letra de canção não faz sentido sem a música. Outras vezes até faz. Acontece mesmo, com alguma frequência, que os compositores musicais vão buscar poemas para os tornar em grandes canções.
Compositores como o Alain Oulman, o Zeca, o Adriano Correia de Oliveira, o Carlos Mendes, o Fausto, o Manuel Freire, o Vitorino e tantos outros fizeram maravilhosas canções com poemas de Camões,O'Neill, Gedeão,David Mourão-Ferreira, Pessoa, Botto, Manuel Alegre, etc, ets, etc.
O Zé Catlos Ary dos Santos pedia primeiro a música e depois é que fazia a letra, o que é muito difícil e exige ter um ouvido e um sentido ritmíco muito fortes.
Alguns compositores fazem nascer as suas letras, os seus poemas, ao mesmo tempo que a música. E nalguns casos fazem não só boas letras cantáveis mas autênticos poemas, com a densidade e a contenção que a grande poesia exige. Falo, por exemplo, do Zeca, do Fausto, do José Mário Branco.
Eu fiz muitas dezenas de canções ao longo da vida. Talvez algumas centenas. Uma parte significativa para teatro.
Gosto desta que aqui deixo. É inédita e pertence a um projecto nascido em 94 e que por esta ou aquela razão ainda não viu a luz do dia. O autor das músicas é um magnífico0 músico e um grande amigo, o Luís Pedro Fonseca.
BENDITO ESTE TEMPO MOLE
(Música de Luís Pedro Fonseca)
Bendito este tempo mole
de Lisboa a Mansabá
manga figo guaraná
rota suave do sol
céu estrelado o meu lençol
entre cachaça e sangria
Bendita seja a baía
e a laranja sumarenta
coladera e marrabenta
sumo de mar maresia
preguiçosa epidemia
no coração da floresta
Bendita a hora da sesta
e o pecado tropical
da tua boca imoral
na minha boca imodesta
quando a noite desembesta
numa festa dos sentidos
Bendito o corpo oferecido
ao beijo da brisa quente
e as tuas mãos insolentes
tacteando o meu tecido
ao som do fado corrido
numa guitarra indolente
Bendito este tempo quente
em que a vontade se escoa
e o olhar se aperfeiçoa
na ciência da ternura
que trago presa à cintura
do fim do mundo a Lisboa
