quinta-feira, outubro 19, 2006

OS HUMILHADOS

OS HUMILHADOS

(Sobre uma pintura de Rogério Ribeiro)



Os humilhados
vêm do centro de uma dor insuportável.

Pedem que o pintor lhes dê um rosto
um perfil de estátua grega
ou apenas que transforme as rugas ancestrais
em bandeiras
ou lençóis
de uma noite de noivado.

Os humilhados
trazem nos dedos
memórias de todos os ofícios.

Sabem a que cheira o jornal acabado de imprimir.
Dobram ferro.
Apanham azeitonas.
Arrancam constelações
do seio quente da terra.

Os humilhados
vêm dos becos mais fundos dos bairros cinzentos.

Atravessam as ruas da pintura
ou melhor
da liberdade.

Pedem a bênção da cor.

Querem ser belos.
Deuses.
Querem ser um furacão.

Dizem: nós somos o furacão.
Tocamos o metal e fazemos uma flauta.
O nosso cântico ressoa na penumbra
mesmo quando a pátria nos esquece.

Dizem: nós somos os danados da terra.
Trazemos o corpo inclinado ao desenho breve
e comovido
das papoilas.


DE "Marinheiro de outras luas", a publicar

sexta-feira, outubro 06, 2006

EUROPA

O blog EUROPA voltou ao activo. É daqueles em que vale a pena parar e beber a sua água funda.

Endereço:


http://flautamagica.blogspot.com/

ERRÂNCIA

ERRÂNCIA


Tu que nasces hoje ou amanhã,
António ou Manuel
ou seja qual for o nome
de vento
que em lusa língua te for dado,
serás marcado
com o ferrete da distância.

Seja o teu olhar de barro ou de granito,
buscarás para sempre
a estrela ou a palavra
que te entregue o corpo ao mar.

Aí acenderás o lume e serás abandonado
à tua condição de viajante,
trabalhando eternamente
sobre os mapas justos e perfeitos
onde se traçam as rotas para chegar
à mais bela de todas e todas
as ilhas inexistentes.